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sexta-feira, 30 de julho de 2010

COMUNICAÇÃO AO PAÍS






Eu, abaixo assinado, declaro, e comunico à Nação, sob compromisso de honra, que não tenho nos meus bolsos, nos meus Bancos, em prédios, ou em offshore, os milhões de que os investigadores do Caso Freeport se diz terem perdido o rasto.





Zé Povinho

APROVEITEM A VIDA...



… e ajudem-se uns aos outros!

Foi uma das últimas frases de António Feio, quando já se desligavam no corpo os últimos fios de vida.

António Feio nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, em 6 de Dezembro de 1954. Popular actor de Teatro, onde se destacou pelo seu humor e profissionalismo, viria a ser, já no período em que lutava contra a implacável doença , condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique.

Para além da sua coragem e força admiráveis, de que nos deu exemplo no último ano e meio, apagaram-se para este grande homem e artista, que nos dizia que o Teatro era uma festa, as últimas luzes da ribalta, nos seus 55 anos de vida.

Deixa-nos, para além da admiração que soube conquistar no seu vasto público, frases que bem merecem ficarem vivas e reflectidas por quantos o admiravam:

“A vida é uma passagem muito rápida. Há que aproveitar bem o tempo”

“Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros”

“Não deixem nada por dizer nem nada por fazer”

Deixou um desejo por cumprir, levar os seus filhos a Moçambique, a terra em que nasceu .


Que repouse em Paz!


quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Geração esquecida!


O mato é verde como a esperança,
denso e forte como a paixão,
cheira a catinga e a feitiçaria,
a queimadas vermelhas na escuridão.
O mato é um céu aberto,
uma prisão com canos escondidos,
o limite de quem não se sente liberto,
um poema de gritos e gemidos.
O mato é música e sensualidade,
negra desnudada num banho de sol,
cabelo enrolado como um caracol,
a gritar e a correr em liberdade.
O mato é o medo que se escapa pelos trilhos,
a desconfiança aos camuflados que chegam,
a fera com cio vagueando desvairada,
suor da arte maconde ainda não prostituída,
O mato é o silêncio duma espera
a angústia sofredora de quem desespera,
tiroteio rasgando em carne viva.
O mato é a castanha de cajú,
água do coco e papaias do desejo,
caçadas de reis sem roque e sem reino,
armas em brasa na guerra sem leis.

E em África jovens se gastaram,
em tempo dobrado esperaram,
que não fosse preciso matar e morrer
para que os homens se entendessem.
Choravam pelos filhos que nasciam
pelos amigos que morriam,
e eles matando e sobrevivendo
e eles ferindo-se e morrendo.
Tinham na Alemanha próteses à espera,
na pele o sol e a chuva,
na alma uma fartura de mato,
nas mãos o cheiro do capim,
nos dedos os calos do gatilho,
nos olhos a lonjura da savana,
na saudade a viagem do regresso,
no coração a surpresa da cilada,
nos ouvidos os assobios das balas,
em Alcoitão cadeiras de rodas,
em Artilharia Um o desalento triste,
nos cemitérios valas já prontas,
nos pés arrastavam o cansaço,
no pensamento silenciavam PORQUÊ?
no corpo o desejo de amar da idade,
conforme o sorriso dos lábios e a vontade
de abraçar a mulher tão longe, tão distante.

Geração esquecida pelo antigo mando,
silenciada pelo novo mando,
por todos os mandos imprestáveis,
por todos os mandos sem orgulho,
sem raiva e sem mãos limpas.

Continuaremos a ser a geração
Sem diamantes nos dedos
e sem presas na arrecadação.

- M. Nogueira Borges*, Porto. Escrito em junho de 1978.

*Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. Pode ler também os textos deste autor nos blogues ForEver PEMBA (http://foreverpemba.blogspot.com/) e Escritos do Douro (http://escritosdodouro.blogspot.com/).
Gostei, revi-me neste poema e trouxe-o para enriquecer as margens do Vouguinha.
Um abraço ao autor!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um conto antigo - FLORESTA DE SANGUE


NOTA PRÉVIA







Escrevi este “conto” em Setembro de 1975.

O reduzido afastamento temporal dos factos narrados implicou um reviver de situações que passaram ao papel como quadro fresco, com as pinceladas de ficção mínimas. Admito mesmo que Hoje, este conto teria outros cambiantes, ou não passaria mesmo da memória do autor.

Sem qualquer pretensão literária, reproduzo-o agora, em humilde dedicatória e com o pensamento nos que, de alguma forma, viveram ou se revêem nas situações narradas, em especial naqueles a quem a má fortuna não permitiu lerem estas linhas.... (Falta, apenas,pedir desculpa por algumas gralhas e pela pouco cuidada configuração do texto)


FLORESTA DE SANGUE

1971. Moçambique/Norte. Manhã de cacimbo fresco. Folhas de cajueiro velho, perdido na mata, choram gotas de orvalho na picada estreita de matope enrijecido pelas tardes quentes. Perto, aves sinistras lançam, a espaços, silvos irritantes por entre centenários embondeiros.

Nada mais se ouvia ao redor. A noite acabava fria, silenciosa e calma, não fora uma gazela atrevida infiltrar-se, em desenfreada correria, cortando o círculo, por entre as três dezenas de fardas negras que, em alvoroço, viram o seu fraco repouso interrompido, num bater de coração mais forte, num aperrar de armas tão nervoso quanto inesperado.

Era um novo dia que rompia, um novo dia que até nem contava. Era só mais uma data, apenas, para rapazes já homens, a quem o dever não permitia calendário de vida. O de morte também podia servir para a contagem indiferente de uma manhã que surge numa floresta sem horizonte.

O Comando havia sido claro na ordem que transmitira. Aquele grupo de homens, fracção duma força de combate estacionada algures no Norte de Moçambique, teria por missão interceptar um grupo inimigo, fortemente armado, que dias antes atacara e saqueara um aldeamento de nativos. O resto era com eles. A zona conheciam-na bem, os perigos não contavam e o medo não era o melhor conselheiro para quem queria conservar a “pele” naquela guerra traiçoeira onde, por vezes, era imperioso “dar” primeiro.

O alferes Carrilho que, com dois furriéis e enfermeiro eram os únicos europeus entre homens de rostos bronzeados, nados junto ao Índico, dava as últimas instruções ao grupo, antes da partida para o terceiro dia de marcha. Os sacos de campanha, acomodados sobre as fardas húmidas e sujas, haviam já sido aliviados de algumas latas de conserva de porco, gordurosas, que só o negro Manjate, fruto recente das Missões cristãs, comia. Os outros, por Alá, nem cheirá-las...

Mais leves, olhos já lavados no orvalho do capim alto, em fila espaçada, aproximavam-se já dum trilho batido, detectado na véspera pelo pisteiro Capoca, um recuperado à Frelimo, a que nada escapava. Por isso, lhe chamavam “o Perdigueiro”.

Ali mesmo fora decidido montar a emboscada. O inimigo, com o saque e elementos da população raptados, poderia escolher aquele itinerário para a retirada mais para norte, para recônditos e mais seguros refúgios, em região onde se pensava estar implantada a Base Manica.

E, quando os cortantes raios de sol tropical já rasgavam as copas frondosas do arvoredo, os homens de negro, espalhados por entre os arbustos, aguardavam silenciosos. Esperavam na incerteza....mas esperavam. Afinal, aquela até era uma guerra de espera.....espera de um final que tardava em acontecer e o último capítulo daquela rude aventura de anos era uma assustadora incógnita....

O silêncio doía muito! Aquele “silêncio” era duro! Via-se no rosto do comandante. Ele próprio preferia gritar bem alto. Ouvir o eco da sua voz lançado pelos rochedos soltos.

Queria gritar que não queria a guerra, mas que não tinha medo. Talvez para assustar esse mesmo medo. Queria não pensar em nada, automatizar-se, mas aquele marasmo de silêncio, que já durava horas, punha-lhe o cérebro mais desafinado que a barulhenta fanfarra do Batalhão.

Nada mais aconteceu naquele dia que desse outra cor àquele quadro vivo de corações enervados.

Com o cair da tarde, o alferes incumbe o Ferreirinha, um baixinho furriel europeu, quase no fim da comissão, da retirada para pernoita. Impunham-se cuidados especiais neste “mudar de sítio”: o local onde haviam pernoitado na véspora não servia. Nem em tal pensar! “Por o periquito nunca mudar de ninho é que lhe roubam os filhos”, dizia o Ubisse, um homenzarrão negro que não largava a metralhadora mais pesada do quartel.

E foi afastado da zona, o novo local de pernoita que, afinal, não era diferente: as mesmas árvores, o mesmo pouco céu, a mesma terra seca, os mesmos pássaros e, até, os mesmos semblantes sofridos do pessoal.

- Meu alferes, isto já não dá nada! Quase não há ração, a água é pouca e os “turras” já passaram por outro lado!

Este era o estribilho do enfermeiro Correia, um dos poucos europeus do grupo. Estribilho que, mais uma vez, ensaiou aos ouvidos do Carrilho, já habituados aos alvitres conselheiros do cola-adesivos lá da malta.

E, quando o alferes lhe retorquiu não se poder retirar sem a certeza de que o inimigo havia passado para norte, lá foi o Correia, coçando o barrete salpicado de mercúrio, embrulhar-se por entre as ligaduras e bebericar a água a que ele, para desinfectar, dizia, juntava álcool. Só que o mordaz Sacura afiançava que o Posto de Socorros estava quase todo na barriga do Correia!....

Eram já 10 da manhã do outro dia. Mais cinco horas eram já passadas daquele dia em

nova espera. De novo o silêncio, de novo a quietude ansiosa de outra emboscada junto

ao trilho adversário.

- - Isto é demais, meu alferes! Que se lixem os turras! Já nem água tenho,- quando é que

is isto acaba? –sussurrava interrogativo o furriel Bazuca, um - minhoto novato, dois meses

a antes largado pelo Niassa naquelas longínquas paragens.

- - Estabelece ligação rádio com o Comando, que eu quero falar com os gajos! – balbuciou o Carrilho, também já preocupado com aquela situação nada agradável.

E foi de abatimento o encolher de ombros agitado e discordante do grupo, quando se

espalhou a resposta do oficial de operações.

- Porra, mas quando é que a malta atinge o Rio Montepuez? Em vez de irmos para o Messalo onde eles se acoitam, vamos para sul? E se

não encontrarmos água até lá? E o que vamos comer amanhã se a ração está a acabar?

Ninguém respondeu ao Correia, de novo a espalhar pessimismo, qual Velho do Restelo

das selvas africanas.

Mas a ordem era para cumprir, estava acima de qualquer desabafo, era superior

a qualquer dúvida ou rezinguice do pessoal. E, bem no íntimo, eles tinham a noção disso, mas aquelas “bocas” descontraíam e davam as energias que iam faltando.

Estava prometido o abastecimento hélio para a tarde do outro dia. Viriam mais umas

caixas de alimentação pré fabricada.... A água, só por sorte se encontraria, a não ser

quando atingissem o rio, para sul, razoavelmente caudaloso e onde, na anterior operação, o

Capoca havia colhido um bom Kg de camarão. Ricos rios que até camarão davam!

A malta até se imaginava os balcões da Portugália.....

A progressão era lenta, por perigosa.

Por vezes, a indicação do “cinco” da frente,

periodicamente rendido, o grupo abria em linha,

metade para cada lado do trilho

inimigo que seguiam, não fosse uma rajadas

traiçoeiras, por detrás de um tufo de

vegetação mais denso ou de uns rochedos

soltos, surpreendê-los. Para triste e doloroso exemplo

chegara o que, dias antes,

acontecera ao alferes Marques, um jovem quase formado em Medicina,

que se vira privado da perna direita, quase esfacelada.

Este tipo de avanço era difícil, mas necessário, e retardava um pouco o andamento que,

em tais circunstâncias, não chegava aos dois Km por hora.

Eram já duas da tarde. O sol, na vertical, jorrava vagas de calor inclemente sobre os corpos

suados. O Ferreirinha largava imprecações minuto a minuto, quando uma aborrecida

micose lhe ardia ao roçar as calças de caqui.....e o sacana do Correia só levava mixórdias...

.acusava o furriel.

De repente, tudo pára. Num movimento sincronizado, qual grupo de bailado rítmico em

estreia no Olímpia, todos se deitam, sem ruído, indicador a tremelicar, hesitante, junto ao

gatilho. Mas não soaram tiros. O passa-palavra chegou depressa aos últimos homens que, já levantados, sorriam: uma jibóia, que mais parecia o tronco de uma umbila, atravessara-se

no trilho, pachorrenta e indiferente a tantas espingardas.

- Mata-se, meu alferes? – perguntou o Ambasse, um maconde esguio, especialista
em liquidar cobras daquela envergadura, arrastando-as vários metros pela cauda,
com o auxílio de um pau-forquilha.
Não satisfeito nas suas pretensões, ensaiou um esgar de desolação por entre as secas
faces tatuadas e juntou-se ao grupo, que já recomeçara a progressão. A jibóia lá ficara, imperturbável,a digerir os restos de qualquer gazela azarenta.
O sol já declinava. Não sendo viável atingir, ainda de dia, o Rio Montepuez, objectivo que,
no momento, os movia, com as calças a balançarem largas e soltas debaixo das
cartucheiras pesadas, pensou-se em calar o estômago contraído.
Não tinham aqueles homens, já bastante identificados com a vida no mato e com os perigos que lhe eram inerentes, por hábito tomar a última refeição, ligeira, no local da pernoita. O Carrilho sabia bem quanto lhe tinha custado, um ano antes, livrar-se das carnívoras formigas a que, muito a propósito, apelidavam de “cadáver”. Fora uma noite de sofrimento: os detritos, o cheiro das latas engorduradas, eram um tentador convite para aqueles bichinhos gulosos. E apareciam de todo o lado, como que chamados por batuque festivo ao banquete real que a carne odorosa da malta lhes oferecia. Assim, havia que comer qualquer coisa antes de anoitecer e do descanso, pois impossível seria romper às escura por uma selva tão fechada.
E foi nessa paragem que o alferes caiu num daqueles erros negligente, ele que não costumava facilitar em questões de segurança. Quando num trabalho de nomadização, em que se andava pelo mato em busca de indícios que levassem ao encontro do inimigo, mas ainda se não seguia qualquer pista, era natural que em qualquer lado se fechasse o circulo para a refeição. Não era este o caso, pois seguia-se um trilho que os guerrilheiros utilizavam. E a norma seria deixar metade da força emboscada junto àquele, enquanto o resto se afastava uma meia centena de metros. Passados uns dez ou quinze minutos, tempo suficiente para tragar umas sardinhas em azeite e umas quantas duras bolachas, haveria a troca do pessoal.
- Como a refeição tem de ser breve, comemos mesmo aqui. Manda abrir o circulo e avisa o pessoal para que se não demore. - e lá foi o apressado furriel Bazuca dispor os homens naquela roda rotineira que fazia lembrar o circulo das caravanas de caras-pálidas perante a iminência de um ataque de Apaches, que o faziam vibrar junto à caixa televisiva, na sua meninice não muito remota.
Foi, então, que um tiro seco soou. Seguiu-se um desordenado e barulhento pegar nas armas em repouso junto aos joelhos dos fardas-pretas, ocupados a esburacarem as latas da ração. Ouvidos atentos, olhos a girarem em todas as direcções, interrogativos, numa fracção de segundos.
De repente, o ar em volta é cortado por uma sinfonia macabra de tiros, rebentamentos e gritos de ordem que não se ouviam.
-UIO-MAMA! - E os homens levantam-se, de armas apontadas. O grito era o sinal já
antigo que os elementos em confronto lançavam para avisarem os mais recuados que o inimigo debandava e era o momento de os perseguir. O pessoal da retaguarda cala as
armas, enquanto a secção avançada continua a disparar sobre o adversário em fuga.
Foi breve a perseguição. Tinha que o ser quase sempre, quando os poucos guerrilheiros
se dispersavam por entre a mata densa. Seguiu-se a batida em linha, para detectar
armamento abandonado no confronto.

- Eu sabia que ela estava aqui, meu alferes! O gajo deve ir ferido, porque eu atirei-lhe

num braço!.... - e o Jonange, com os dentes afiados por debaixo dos seus lábios
espessos, sorria, exibindo uma “Simonov” ainda nova, oriunda do bloco soviético,
o maior arsenal da Frelimo. Outros haviam, também se encontravam armas de origem americana e de potências ocidentais.

- O artista vai mesmo ferido, - dizia o ferreirinha, ao inspeccionar a semi-automática com umas gotas de sangue ainda fresco, ao longo da bandoleira de caqui.

Não eram mais do que cinco os inoportunos estraga-jantares, mas foram mais do que suficientes para agitar e desgastar, ainda mais, aquela trintena de homens já cansados.
Seguiu-se o afastar do local para o “estudo da situação” que o Carrilho costumava fazer nestas situações, não só para se inteirar dos pormenores do confronto, mas também para acalmar os homens ainda agitados, com o coração a bater forte e os ouvidos a repetirem, teimosamente, o eco da metralha.
- Foram eles que deram o primeiro tiro, meu alferes. O Amisse estava levantado a afiar um pau para tirar o ananás da lata. Foi para ele que os turras dispararam.

- E porquê tanta demora a responderem? - interrogou o Carrilho, fitando o velho cabo negro, que fora caçador de elefantes lá para as serras do Niassa.

- Nós só os vimos quando voltaram a fazer fogo. Foi então que o Jonange começou a disparar sobre os gajos....
Já escurecia. O alferes estava desolado. Irritado mais consigo próprio por ter falhado daquela maneira de checa principiante, que já não era. Mas que raio de azar aparecerem logo naquela altura! E, pior ainda, não era o grosso da coluna inimiga que tinha por missão deter. Cinco homens seriam, ou uma guarda avançada ou, o mais provável, emissários enviados ao “quartel-general” da área, algures mais a norte, dando conta dos resultados do ataque ao aldeamento, ou na procura de remuniciamento, pois os guerrilheiros quando perpetravam qualquer ataque eram “generosos” no gastar de munições, que não podiam armazenar em grandes quantidades.
Mas tudo isto eram conjunturas falíveis.
- E se os tipos recuam e vão avisar os outros que estamos a tentar apanhá-los? Já não dou nada por isto! - desabafava o Ferreirinha, sem deixar de coçar a micose que naqueles momentos de tensão ainda mais o importunava.
- Não devem ir, meu furriel, - interrompeu o Capoca, com o seu ar de sabe tudo -, eles quando vão para qualquer sítio já têm combinado o local de encontro no caso de serem atacados. Separam-se agora na fuga, mas vão juntar-se lá mais à frente, para continuarem a marcha rumo ao seu inicial destino.O Carrilho apostou nesta versão. Não só pelas provas de intuição guerrilheira que o “Perdigueiro” já havia dado, mas pelo facto de ter sido já combatente activo da Frelimo. E, vá-se lá saber porquê, era considerado “acima de qualquer suspeita.

Não houveram baixas nos fardas pretas. Apenas uma camisa furada e um ligeiro arranhão nas costas do Amisse, onde o Correia já colocara mais um adesivo.

A noite marcou-lhes encontro quando já procuravam local próprio para mais um descanso. Não o foi muito, porque os nervos excitados ainda não haviam atingido o “rilex”; tão difícil de conseguir naquela guerra desgastante, nada convencional.
O outro dia seria mais complicado. A ração, em termos logísticos, já havia acabado, não obstante o pouco apetite do dia anterior e o “calo” de poupança do pessoal guardassem umas latas providenciais. A água é que molhava poucos cantis. Ma o rio seria atingido pela manhã e o reabastecimento “hélio”, já prometido, era esperado à tarde.
- Falta muito para chegarmos ao Rio Montepuez? - pergunta o Ferreirinha, quando já tinham duas horas de marcha do novo dia, eram, então, seis e meia da manhã e o sol já raiava há muito por entre o arvoredo, agora mais verdejante e espesso, com o aproximar do rio tão desejado. E o Alberto, uma macua que vivera naquela zona, agora deserta, muitos anos, até que a guerra chegou, e onde tinha a sua palhota e uma grande machamba de mandioca, aponta para o céu sem nuvens e, indicando um ponto imaginário, respondeu ao ansioso furriel:
- Se não pararmos, quando o sol estiver ali, já estamos no rio.
Não foram muito enganadores os dados do velho cabo Alberto. Pouco passava das onze, quando o grupo atingiu a margem de vegetação densa e viçosa do tão familiar Montepuez. O trilho, que nunca haviam deixado de seguir, bifurcava-se ali e perdia corpo, para se transformar numa manta de abundantes pegadas, por entre o tufo de lianas entrelaçadas em árvores de copa larga.
Era aquele o local pretendido para a última tentativa de interceptar o inimigo no seu regresso de ataque ao aldeamento.

Para o Carrilho, que não deixando de respeitar, no essencial, as ordens que recebia, valia bem mais o seu objectivo pessoal e o melhor que se podia conseguir daquela missão era subtrair do controlo do inimigo os elementos da população por ele raptados no aldeamento e que, segundo indicação rádio, rondavam as 20 pessoas. Ele sabia que aquela gente não ia de vontade. Conhecia bem a realidade macua. Se fosse da sua vontade, oportunidades para se juntarem aos guerrilheiros da Frelimo não lhes faltavam, atendendo ao isolamento da aldeia, onde se dedicavam ao cultivo de produtos para sua subsistência e de rendimento, como o algodão e o caju. Os macuas eram pacíficos, queriam paz e não se deixavam aliciar pelos insistentes convites dos “mabandidos”, como então chamavam aos guerrilheiros.

Daí as retaliações frequentes, caracterizadas por um vandalismo primário, pouco compatível com o alardear de intenções libertadoras que apregoavam. Daí, também, o desprezo, a raiva incontida que alimentava uma fogueira de vingança no peito daqueles negros fardados, que deram a algumas forças expedicionárias, exemplos de coragem e de luta interessada, passe a categoria de algumas tropas europeias de elite que se souberam bater com honra.
Por tudo isso, o esforço, o espírito de sacrifício, indiferente à sede e à fome, daquele grupo de fardas negras, preocupado, agora, no encher dos cantis, no refrescar dos corpos sujos naquelas águas transparentes dum rio que desliza em suave paz, alheio aos sentimentos de dor, de medo, de horror àquela guerra e seus terríveis efeitos, de homens que procuravam dentro de si mesmos justificação para uma guerra de irmãos que nunca haviam experimentado. Como acabá-la, como extirpar o ódio, como dizer basta?! Perguntas sem resposta.......
Mas, enquanto estas meditações ocorriam, tratava-se era de cumprir mais uma missão, mais uma peça duma engrenagem bem complicada e havia tão só que a desempenhar o melhor possível, com o profissionalismo a que o dever obrigava.
- A secção do Bazuca já está abastecida de água. Vou agora com o meu pessoal. - informava o Ferreirinha, enquanto o alferes, esticando a antena do Racal, tentava comunicar ao Comando a sua nova localização, atingido que fora o objectivo imediato. O restante pessoal, disposto em linha paralela ao leito do rio, tomava posições, não fosse surgir nova surpresa, enquanto uns vinte metros mais abaixo os outros se dessedentavam.
As três da tarde surpreenderam o Carrilho com o Bazuca e um grupo de cinco elementos a reconhecerem o local da emboscada, que até nem era muito apropriado: a vegetação cerrada, com ramos entrelaçados por sobre a margem do rio, apesar de abrigada e bem camuflada, tinha o inconveniente de não permitir ligação á vista entre o pessoal, mas tinha a vantagem de colher o inimigo na travessia do rio, com pé naquela estação, passe o razoável caudal de água corrente. Outras alternativas não eram mais viáveis.
- Apre, mas aqueles gajos passam por aqui? Esta porcaria está cheia de feijão macaco! - vociferava o Bazuca, enquanto se coçava aflitivamente. Aquele pó que as malvadas feijocas libertavam ao serem tocadas era mesmo demoníaco! Irritava bem mais que um bravo urtigal das Beiras. E o comichão não passava, sem que a pele ferida de arranhões fosse esfregada por providencial cinza de queimada recente. Era, naquela região, um dos maiores inimigos que a vegetação tropical lançava contra o homem.
- Os tipos têm a pele dura, não barram as orelhas com creme Nívea, como o meu furriel....-zombou o Correia, que não deixou de ir meter o espevitado nariz no breve trabalho de reconhecimento.
Vinte minutos depois já quinze homens estavam dispostos ao longo da margem, com o rio e o lado oposto à vista, numa linha que, por força da natureza do terreno, não teria mais que quarenta metros de extensão. Os restantes quinze ficaram recuados a uns trinta metros dos emboscados e tinham por missão fazer face a qualquer, pouco provável mas não impossível, aproximação do inimigo pela retaguarda.
Renderiam os outros duas horas depois e, no caso de surgir o grupo inimigo, ocorreriam para os flancos, em reforço do pessoal da frente.
Mas tudo começou pouco depois. O Inferno, numa aparição contraditória, abriu-se, abrasador, por entre as águas frescas do rio e passou-se a meia hora mais longa na vida destes combatentes, passe o facto de já estarem habituados a situações de confronto.
Aquela foi diferente, foi desumana, terrível!....
Haviam sido dadas instruções para que só se disparasse quando o inimigo surgisse em grande número, já dentro de água. Mas ele usava das suas cautelas. De início, só dois guerrilheiros entraram na água. O grosso da coluna aguardava em fila, do outro lado.
Não arriscavam de qualquer maneira. Os ensinamentos colhidos pelos chefes na China e URSS haviam sido bem assimilados. Viam-se os primeiros três estáticos, aguardando que os dois primeiros fizessem a travessia....
E não se sabe quem abriu as portas daquele inferno trovejante, quando aqueles divisaram o cano brilhante de uma G3 menos escondida. Quais molas de aço, atiraram-se em cambalhotas aquáticas, disparando sempre, até caírem atingidos dentro de água.
Foram as primeiras vítimas. Os outros recuaram, retomaram posições e despejaram sobre os quinze emboscados quantas armas traziam.
Seguiu-se um tiroteio intenso, medonho. Três bazucadas inimigas fizeram lume por cima das lianas esfaceladas, por sobre a cabeça do Ferreirinha. Os gritos confundiam-se com o rebentar constante das granadas que levantavam água fervilhante. Gritos de dor, à mistura com outros de incitação, davam àquele quadro incandescente um reflexo de luta e morte.
Os abutres não tardariam a esvoaçar sobre ele!...
O grupo inimigo era numeroso e aguerrido. Notara-se logo, aos primeiros disparos. Mas, se alguém tinha que abandonar o terreno, seriam os guerrilheiros. Eles sabiam-no e convinha-lhes por estratégia, mas a força do seu número e armamento davam-lhe inusitado ânimo de experimentarem o pulso dos fardas negras, talvez, também, para darem cobertura e tempo à retirada da escolta com a população raptada. Só eles sabiam......
- O morteiro, depressa! - grita o alferes, correndo por entre o capim ao encontro do apontador Zé João, um misto landim muito dedicado.
Era o último recurso. Quando a força inimiga era forte, insistente e bem armada, só o rebentar das granadas de morteiro 60 a podia desmoralizar. E, em catadupa, foram caindo na outra margem, com uma impressionante regularidade, dez granadas que elevavam por cima das copas, uma nuvem de folhem seca.
As armas ligeiras foram-se calando, pouco a pouco.
- Meu alferes, temos um morto. O Manjate já não tem vida.. - gaguejava o Correia, com o rosto lívido e os olhos desorbitados a jorrarem lágrimas envergonhadas, - também há feridos, mas ainda os não alcancei. Estão entre as lianas. Eu oiço-os...-e já corria com a caixa de medicamentos por entre o arvoredo.
O eco da metralha calara-se de vez. Só a vozearia excitada e os chamamentos aflitos, entrecortados por gemidos de dor, se ouviam.
Além da baixa do Manjate, atingido em cheio no peito por estilhaços de granada de bazuca, haviam mais três feridos, com alguma gravidade.
Já o furriel Bazuca, com o pessoal que acorrera aos flancos, atravessava o rio em corrida. Era a perseguição ao inimigo que se sabia levar feridos. Os dois mortos, tombados na água, lá contiuavam...
Os homens que sofreram o impacto directo do combate, reagrupavam-se sob a orientação do Correia; transportavam os feridos para local mais aberto e recuado. Um deles era o Ferreirinha, o veterano que, a dois meses do fim da sua comissão, gemia e jorrava sangue. A bala ficara-lhe alojada no antebraço. Talvez no osso.
- Já pedi a evacuação. Depois desta merda acabar, vamos directos à estrada de Macomia que fica mais próxima e, às nove horas, a Companhia de Muaguide tem viaturas para nos recolherem. Disse-lhes para não trazerem rações.....ninguém tem fome depois desta porcaria....
O Bazuca, com o pessoal empenhado na batida no outro lado do rio, tardava em aparecer. Mais do que o braço do Ferreirinha, o Carrilho notava a atrapalhação do Correia às voltas com o Ambasse, com um estilhaço de granada alojado na cabeça. O seu aspecto não era assustador, mas o enfermeiro sabia, por experiência, do perigo de tal ferimento. O braço do furriel, a que fora estancado o sangue, ia inchando assustadoramente. Não lhe faltava o ânimo, alimentado pelas palavras reconfortantes do Carrilho, mas não escondia a dor que começava a sentir, cada vez mais forte.....
Os olhares sofridos do pessoal evitavam o corpo do infeliz Manjate, coberto por um abafo de pescoço. Era a primeira mortalha de um negro jovem, que nunca deixava de estar nos locais mais perigosos da luta.

No emaranhado de sentimentos que assaltavam os seus camaradas, ainda não viera à superfície a dor profunda que os dominou, largo tempo, no perder dum companheiro de armas....

- Meu alferes, lá vêm os passarinhos! - informou o Amisse, apontando para os dois helicópteros vindos do horizonte baixo.
Aproximavam-se. Um pouco acima, um barulhento T6 dava-lhes protecção.
A clareira da retaguarda serviria para a aterragem, apesar do capim alto. Montou-se segurança e uma granada de fumo largou um espesso cogumelo.
- E o Bazuca que não vem com a malta! Se houverem feridos dos gajos ou da população raptada, não são evacuados!
Já se fazia tarde e a Força Aérea não faria evacuações nocturnas. Mas, de momento, interessava prestar assistência aos nossos feridos.
Não muito do agrado da tripulação, lá se conseguiu meter o Manjate, o primeiro morto dos fardas pretas desde que há cerca de dois anos o Carrilho os comandava. Teve que viajar no “hélio” com boletim de ferido. Teria um funeral mais digno e humano que aquele que, localmente (na base), lhe poderia ser oferecido.
E quando os helicópteros, barulhentos, se elevavam lá no alto, algumas lágrimas teimosas saltavam dos olhos de homens endurecidos no calor da selva e da metralha, de corações forjados na selva inóspita em fortes laços de cumplicidade. Mas eram homens, sensíveis como todos os outros....alguns bem mais ainda. Não eram mariquices aquelas lágrimas que lhes rolavam pelas faces....começavam a compreender o mundo, a vida, à custa de sofrimento e de morte. À custa de si próprios....
- Já chegaram ao rio. Trazem muita gente com eles! -avisou o Zé João, agarrado ao morteiro 60, que nem a dormir largava. E vinham mesmo. O Jonange trazia mais cinco armas que não eram as suas: três Kalascnicov e as duas Simonov molhadas que, entretanto, retirara do rio. O Ubisse, como se a sua pesada metralhadora lhe não pesasse, exibia duas granadas de bazuca. Outro maconde carregava com dois sacos de papéis e, com a habitual graça, ia informando, zombeteiro, que “os gajos queria montar no mato mesmo o gabinete do administrador....”.
Com os últimos cinco homens, vinham, então, elementos da população do aldeamento atacado. Com eles haviam perdido grande parte do tempo, pois cada qual dos civis se esquivara para seu lado, ao soarem os primeiros tiros. Outros teriam mesmo fugido do local e tentariam, por certo, alcançar a aldeia donde haviam sido raptados.
Tal não acontecera ao filho duma velha negra, que chorava copiosamente: ao tentar subtrair-se à vigilância dos frelimos, fora abatido, de imediato.
Um velho, de peles secas, que diziam ser importante conselheiro do aldeamento, andava com muita dificuldade. Dos dedos dos pés, mordidos pelas micaias espinhosas, jorrava sangue a cada passo.
Não tinha descanso o Correia, naquele lúgubre fim de tarde.
- Os tipos eram muitos, meu alferes – diz o Bazuca, que , mal chegou da batida final, se encostou, hirto de cansaço, a um pequeno arbusto. -Diz esta gente -apontando para uma dezena de populares de ambos os sexos e variadas idades -que devem ser à volta de setenta. São oriundos de várias bases e só se reuniram para este ataque ao aldeamento do Longote. Além dos que tombaram no rio, encontrámos mais um, logo na margem, e outro já mais longe. Levam feridos, pois há rastos de sangue, devem tê-los carregado. Só lá estava este! - e de dedo em riste apontava para um maconde muito jovem, 16...17 anos, já sob os cuidados do enfermeiro. Não gemia, só lançava, a espaços. Gritos de dor. Tinha a perna bastante ferida, talvez pelo rebentamento de uma das granadas de morteiro.
- Temos de o carregar. Tratem de improvisar duas macas de ramos, pois o velho também não consegue andar e temos de atingir a estrada de manhã cedo. Vamos pernoitar mais à frente. O Alberto, que conhece bem a zona, ainda que nos vá custar, pode guiar-nos mesmo no escuro, para ganharmos algum tempo.
Foi, então, que parte dos fardas pretas começou a rodear o alferes, com um semblante estranho, a passos lentos mas decididos.
- Que quem vocês? Mexam-se que temos que arrancar daqui!...
- Nós queremos dizer-lhe que só carregamos o velho, meu alferes. O turra fica! Morto ou vivo, não interessa. Mas nosso não vai carregar com bandido que matou Manjate!
E travou-se um diálogo acalorado, nada agradável. O Carrilho olhava para o Bazuca, como que pedindo reforço de argumentos, mas aquele, ainda encostado aos arbustos, limitava-se a passar as mãos pelos cabelos desgrenhados....
- Vocês não sabem que é crime abandonarmos um homem ferido, seja quem for? Também gostavam que eles vos fizessem o mesmo? Guerra é guerra, mas o combate já acabou! – insistia o alferes.
- Eles fazem pior! Então porque é que os gajo quando apanha os milícia na picagem mata aqueles que ficam feridos nas armadilhas? Aquele meu primo Silale que ficou escondido na mata, não viu eles darem tiro na cabeça daquela gente?!- explodiu o Capoca.
- E meu alferes já esqueceu o que turras fizeram com seu primo cantineiro lá em Ancuabe, um homem que nem arma tinha e eles mataram junto com senhor Daniel do algodão, lá na estrada de Moja?! – observa o Zé João, num tom mais respeitoso, mas com mal contida raiva.
O Carrilho viu-se perante um dilema que não esperava enfrentar. Aquela atitude de quase insubordinação geral, perante a indiferença comprometedora do furriel e do Correia, tomava foros delicados, de indisciplina.


A muito custo, depois de lhes lançar o ultimato de que pediria para abandonar o G.E. logo que chegassem ao Quartel, caso a recusa de transportar o “turra” ferido, lá o foram carregando, contrariados e vociferando impropérios contra o frelimo que, afinal, era tão só mais uma vítima de guerra, de que pouca culpa também teria. E que, mais do que trazer no peito a ânsia de independência, mais não era do que um joguete de interesses internacionalistas e dos jogos de poder de altas potências.

E a abatida caravana arrancou daquele local sinistro, que ficaria gravado para sempre nas suas memórias.
Local de morte, de desolação, que poderia ser de trabalho e de paz.
Mais um pedaço de vida ficava ali perdido por entre lianas entrelaçadas que as balas raivosas cada mais desuniam.
No lodo das margens daquele rio ficavam enlameados bocados de almas de jovens que pretendiam conseguir o que, viu-se mais tarde, responsáveis não souberam respeitar, indiferentes aos sentimentos duma população que procurava fraternidade e entendimento.
Indignos do sacrifício de tantas vidas foram uns e outros. Uns por teimosia doentia, outros por incompetência e outros, ainda, mais recentes, por pressa e traição vergonhosas, quando decidiram ao total arrepio da vontade das populações.

FIM.


F. J. Branquinho de Almeida - 1975

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os intocáveis patifes


João Palma, Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, numa crónica hoje publicada num matutino, escreveu:


"Portugueses, preparem-se. Em sede de revisão constitucional a grande questão para políticos sem escrúpulos será esta: como continuar a escapar a um a justiça que funcione de forma igual para todos"


Apenas me merece um pequeno comentário: só têm e terão "escapadelas" se os Magistrados não cumprirem o juramento de probidade e isenção que consta da sua cartilha de ética. Que nunca lhes falte a coragem.........e a verticalidade que os impeçam de se deixarem enredar nas malhas que os políticos sem escrúpulos tecem!...


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Para registo.... e reflexão!

Eu diria "nem tanto ao mar, nem tanto à terra"......
Mas, a continuarmos assim, lé chegaremos!


quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Dia do Filho da P


É sabido que há "dias" para quase tudo, ao longo de todo o ano.

O sindicalista argentino Luís D'Elia terá proposto aos seus compatriotas que passem a celebrar o Dia do Filho da P... a 2 de Agosto, data do nascimento do que aquele considera ter sido um ditador do seu país.

Fiquei a fazer virtuais exercícios de cálculo para saber como encaixar todos os FDP, dos muitos que têm passado pelos destinos de Portugal nas últimas décadas, num calendário que só nos apresenta 365 dias para escolha!...

domingo, 11 de julho de 2010

Jornadas "Para Lamentares"

Fiquei com alguma expectativa quando soube que o PS ia reunir as suas altas figuras do aparelho da rosa e deputados, para um encontro a que deram o nome de "Jornadas Parlamentares".
Esperava-se que fosse uma oportunidade para se discutirem, abertamente, e sem amarras partidárias, os reais e pungentes problemas do País.
Afinal, e a crer no que as televisões foram, profusamente, transmitindo, não foi mais que uma reunião de confrades em que cada um dos oradores procurou ser o campeão das "farpas" aos partidos da Oposição...
Mais uma oportunidade perdida, em que apenas ficou na retina um concerto de violino com que um dos dirigentes do Partido da Rosa, o Dr. Santos Silva, que é Ministro da Defesa do actual Governo, brindou os participantes e os telespectadores, incrédulos e cansados dos estridentes falsetes do homem do "malho"!
Ficou maltratada a Política, o apaziguamento......... e o violino!

Eu quero aplaudir....

.... o Senhor Ministro da Administração Interna, o homem que superintende, para lá de outras Instituições, nas Polícias e nos Bombeiros, por saber da sua participação, hoje, numa corrida contra a violência e que o fez percorrer, em marcha acelerada, os seis Km que separam o Bairro da Quinta da Fonte de Sacavém!
O Vouguinha promete mais sonoras palmas quando o Senhor M.A.I. estiver disposto a marchar umas centenas de Km, até às serranias das Beiras, para socorrer doentes e apagar fogos em Castro Daire, onde as viaturas dos bombeiros estão com os depósitos secos por falta de verba para o combustível, esgotados que estão os contributos camarários e da população local que, com sacrifícios, têm sustentado aquela Corporação de Soldados da Paz...

Fica a promessa de fartos aplausos.

O Vouguinha, quando promete, cumpre....

sábado, 10 de julho de 2010

As sondagens da raiva


Sem que tenha vestida qualquer camisola rosa ou laranja, muito menos sendo paladino de qualquer dos dois exércitos políticos que se vão gladiando nas arenas do poder, não deixei de me surpreender pela forma virulenta com que o Primeiro Ministro e, sobretudo, o seu vice Silva Pereira, atacaram Passos Coelho, o líder do maior partido da oposição, pelas suas declarações em Espanha a propósito do negócio PT/Telefónica.
Não me detendo em considerandos sobre a legitimidade da "Golden Share" de que o governo se serviu para inviabilizar a venda da Vivo, aprovada pela maioria dos accionistas da PT, decisão que, adianto já, não terá passado de uma manifesta cavalgada de pseudo-nacionalismo (que colhe bem num Povo cioso do que pensa ser seu), passo à "cartada" de mais um "caso" que só pode ter sido fabricado para iludir os menos atentos e distrair-nos dos reais problemas do País, os que, realmente, nos preocupam.
Desde "vergonha" a outra farta e forte adjectivação, ambos os responsáveis invectivaram o chefe laranja, acusando-o de não defender os interesses nacionais.
Sabendo que este emitiu, logo após a decisão do Governo, exactamente a mesma opinião que proferiu em Espanha, interrogo-me se a hipocrisia política, de que alguns usam e abusam, obrigaria Passos Coelho a vender uma ideia em Portugal e o seu contrário em Espanha!
Por mim, não duvido, foi fraca a arma utilizada pelos socialistas contra o seu rival partidário, na sua já estafada cruzada de vitimização, que já pensava - eu e, provavelmente,muitos outros -, ter sido abandonada pelo partido da rosa.
E que ora, pelo que li nos jornais e ouvi nas televisões, parece regressar em força, como sendo o último recurso duma fera enjaulada pelas próprias trapalhadas, aturdida pelas sondagens que têm vindo a público.
É que, de facto,o que vi e ouvi de Passos Coelho, não justifica mais uma jogada de conflitos e confrontos partidários, como se o homem tivesse traído a Pátria, conspirado contra a Nação, insultasse os seus mais altos eleitos ou andasse pela "estranja" a arrastar ou a pisar a bandeira nacional!...
O desespero de se sentir escapar o poder num horizonte próximo, leva muitos dirigentes políticos - em especial, os que só disso vivem -, ao desespero, à baixa política, em que nos tentam envolver, cativando a alma dos potenciais eleitores.....
Mesmo aqueles que, eventualmente, nunca tenham feito nada na vida, para além da sua carreira política, ora desempenham cargos governamentais e já tenham "apalavrado" o seu futuro nas Administrações de Empresas Públicas ou Privadas...

Malditas sondagens!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sócrates ficou a ver.........aviões!

Um diário informa, hoje, que José Sócrates, no seu regresso de Bruxelas, em 7 de Maio último, onde se havia deslocado para participar na Cimeira que aprovou o auxílio financeiro à Grécia, se viu obrigado a viajar em voo comercial, por alegada impossibilidade de o fazer no Falcon da Força Aérea que o havia transportado até à Bélgica.
A recusa terá partido dos pilotos do avião militar que invocaram não poderem voar sem que fosse cumpridas as horas de repouso que, por motivos de segurança, os regulamentos estipulam.

Até aqui, tudo normal e aceitável.

O que já não se pode aceitar é, a ser fidedigna a noticia do matutino, que o Primeiro Ministro se haja mostrado desagradado com a recusa!...

Não é das pessoas, pelo seu cargo e estatuto, que mais devem dar o exemplo, cumprindo e fazendo cumprir as leis deste País, sejam elas de que natureza forem?


Se assim não for, estaremos num Estado sem Rei, sem Roque .....e sem Lei!

sábado, 26 de junho de 2010

Os chip managers

Vi-o, em primeira mão, exibido por um deputado do PS, em plena AR. Depois, foi o Secretário de Estado Paulo Campos a dar-lhe honras televisivas. Ambos insistiram na qualidade, na inocência ternurenta e insubstituível do chip das SCUT em polémica acesa.
Olhando bem, mais parecia um pequeno e inofensivo brinquedo, que ambos manipulavam como se um ratinho de peluche se tratasse e que não é, à primeira vista, muito maior que os chips aplicados pelos veterinários nas vaquinhas e nas cabras que ainda vão pastando por aí.
Nada de especial naquele objecto a que muitos já teimam em denominar o "olho" do Estado...

O chip já estava escolhido. Era aquele e mais nenhum. Não sei se com ou sem concurso, ninguém mo disse, nem tão pouco o questionei.
O que, como bom português, estranhei, e desconfiei, foi da exagerada mostra do produto.
Não terá nada a ver, mas hoje, ao desfolhar o "Expresso", voltei a bater com o nariz no afamado chip. Desta feita - e a crer na notícia -, fiquei a saber que um ex-assessor do Secretário de Estado Paulo Campos, em 2008 e 2009, é nada menos que o responsável máximo, o "country manager" para Portugal da empresa fornecedora dos tais "chips" a instalar nas SCUT!...

E, sem me alongar mais, apenas fico, intimamente, a pedir aos nossos representantes na AR que não estraguem o negócio, nem à empresa nem ao seu manager!
Para que Portugal não perca o rumo que vem tomando nos últimos anos.....

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dia de São João

É inevitável. Estas festividades, com raízes em tradições antigas do nosso Povo, despoletam recordações que nos remetem para anos de juventude, para os tempos das sacolas escolares, com lousa e giz, dos folguedos juvenis que nos ocupavam os tempos livres.
O São João, é, do trio estival, provavelmente, o mais celebrado no Norte do País, tinha duas vertentes na minha infância: a ida, logo pela manhã, no Vouguinha fumegante, com a rapaziada do meu tempo, para Viseu onde assistíamos, entusiasmados, às, naquele tempo já antigas, "Cavalhadas de Vildemoinhos". À noite, de regresso das festividades da cidade de Viriato, e após se terem, abusivamente, "alugado" uns vasos das varandas mais floridas, saltavam-se as fogueiras com aroma de rosmaninho, perante a preocupação dos mais velhos que iam avisando para o chamuscar dos putos de perna curta, menos dotados para o salto das labaredas.
As "Cavalhadas" continuam, apagaram-se as fogueiras, mas o S. João permanece vivo no imaginário e na tradição, sendo no Porto onde esta todos os anos se renova com mais brilho.
E é num vaso de manjericos da Invicta que deposito uma quadra, bem ao espírito do São João....e à maneira do Norte:

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sete vuvuzelas!


Nós somos assim. Zangamos, criticamos, desesperamos, quando se não chega à vitória.
Descarregamos a raiva nas "vuzuvelas" do Jorge Lacão, maldizemos com o som estridente das "cornetas do Diabo"...

Empertigamos, elogiamos, vibramos, ao som dos melodiosos violinos em que as vuvuzelas, num milagre de onze anjos, e de repente, se transformaram!

Sorrimos, perdemos algum azedume, que, mais no Futebol do que na Política, o momento é de esperança!....

Mesmo sabendo que depois da ressaca duma bebedeira de Alegria, acordamos e estamos na mesma vil tristeza, perdidos na bruma das incertezas...

Mas, brindemos, enquanto há Festa!!!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

"Tá-se mesmo a ver, não tá-se?"....


... que o encerramento de 900 escolas do Básico, se inserem numa medida de melhorar o Ensino em Portugal, como defende a tutela!
Não tem fins economicistas, não senhores!
O noticiado abate de 2 helicópteros e 25 ambulâncias do INEM, que afectarão muitos pontos do país, também não é medida economicista. Nem pensar!
Uma e outras visam o bem estar, o progresso do Nosso Povo, sobretudo das populações do Interior!
Tá-se mesmo a ver, não tá-se?!
- Tá-se, tá-se!...

O Tejo, no dia de S. António....














... espreguiçava-se, num azul sereno, entre as duas margens em festa!

domingo, 13 de junho de 2010

No País das sardinhas e caldeiradas


Portugal é o terceiro país do Mundo que mais se alimenta de peixe!
É obra! Com direito a medalha de bronze..... e lugar no pódio!....
Agora me recordo que, já lá vão mais de dois anos, alguns ingleses, do alto da sua presunção, em tom depreciativo, nos acusavam de "comedores de sardinhas"....
Um episódio que repesquei, pelas guelras, do Vouguinha original:
quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Comedor de sardinhas.


O embaixador de Portugal na Ilha de Sua Majestade, António Santana Carlos, no exercício do seu indiscutível direito de opinião, havia condenado o comportamento dos pais da Maddy ao deixarem sós, no apartamento, os seus três filhos de tenra idade.
Opinião que, aliás, não é só sua: no mesmo sentido, de condenação moral do acto de abandono, se têm manifestado milhares de portugueses e ingleses.
A reacção dos "intocáveis" não se fez esperar.
E chegou com o insulto soez de um colunista do "Mirror"que, encarnando o antigo complexo dos súbditos da Rainha, aconselhou o representante diplomático deste Povinho subserviente, a "manter fechada a sua estúpida boca de comedor de sardinhas".
Sem querer assumir as dores do ofendido, melhor, os odores da sua sardinhada, não deixo de ler mais um sinal da arrogância de quem não se convence que deixou, há muito, enquanto nação, de ser, em muitas vertentes, exemplo para outros povos, passe a tradição dos bons costumes da mais velha democracia do Mundo.
Até porque a pequena Maddy é inglesa, os pais também, só o território da "malvadez" foi o nosso. E ainda nos resta saber da nacionalidade do/s malvado/s..............que até poderão ser vizinhos do colunista inglês, o Lord cozinheiro desta peixeirada!

sábado, 12 de junho de 2010

Teias de aranha limpas....


.... no Dia de Portugal, pelo desassombrado discurso de António Barreto.

Ainda
não me convenceram.
Para além do esclarecido - mas tardio! - discurso de António Barreto, a quem (suspeito) se deve, em exclusivo, a presença dos ex-combatentes na cerimónia do 10 de Junho, a maioria da classe política que nos vem governando manteve-se à margem do reconhecimento do sacrifício daqueles que a Pátria mandou combater.
Depois de andarem mais de trinta anos a inculcar no espírito dos portugueses o sentimento de que os combatentes de África encarnam o odioso daquela guerra prolongada e dolorosa, a elite política que emergiu do 25-A, está longe - até por estratégia ideológica- de reconhecer que aqueles que combateram o fizeram em nome de Portugal.
Importa saber, em igual plano, se daqui a alguns anos, com outros ventos históricos, se para os militares oram mandados para o Afeganistão, Bósnia, Kosovo e para outros destinos de conflito armado, não vai ser transferido o ferrete de terem participado em guerras injustas.
Tarde, mas António Barreto - que até se eximiu ao cumprimento do dever, e mais insuspeito se qualifica -, soube chegar ao âmago da questão ao vincar, de forma bem veemente, que sendo os Governos a decidirem as guerras (justas ou injustas), os militares cumprem o seu desígnio, mas lutam em nome da Pátria e não de governos ou políticas.
E é dela, da Pátria, que os combatentes se sentem credores do respeito que lhes é devido.
E que, até agora, lhes tem sido regateado!...


Eis o notável discurso de António Barreto (36 anos depois do 25 de Abril!!!!) nas cerimónias do 10 de Junho, em Faro:

O DIA DOS PORTUGUESES ou, oficialmente, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, comemorado em 2010, tem um significado especial. Na verdade, assistimos esta manhã a um desfile das nossas Forças Armadas precedido de uma extensa delegação de Veteranos, de Antigos Combatentes, mais singelamente de combatentes dos exércitos em todas as guerras e conflitos em que Portugal esteve envolvido desde meados do século XX. Ao ver desfilar umas dezenas de antigos combatentes, de todos os teatros de acção militar em que Portugal participou, não sentimos vontade nem necessidade de lhes perguntar pela guerra, pela crença ou pela época. Sentimos apenas obrigação de, pelo reconhecimento, pagar uma dívida. Sentimos orgulho por saber que é a primeira vez na história que tal acontece e que está aberta a via para a eliminação de uma divisão absurda entre Portugueses. Com efeito, é a primeira vez que, sem distinções políticas, se realiza esta homenagem de Portugal aos seus veteranos. Centenas de milhares de soldados portugueses combateram em nome do seu país, do nosso país, desde os inícios do século XX até à actualidade. Já não há sobreviventes do Corpo Expedicionário Português enviado para Flandres, na 1ª Grande Guerra Mundial, nem das forças que, no mesmo conflito, lutaram em África. O último veterano dessa guerra, José Maria Baptista, morreu a 14 de Dezembro de 2002. Depois daquele conflito, as guerras foram, durante décadas, poupadas aos Portugueses. Só a partir de finais dos anos 1950 os soldados e outras forças militarizadas voltaram a encontrar-se em situações de combate aberto, primeiro no então Ultramar português, depois em múltiplos teatros de guerra, em associação com forças armadas dos nossos aliados da NATO e da União Europeia e em missões organizadas sob a égide das Nações Unidas. Independentemente das opiniões de cada um, para o Estado português todos estes soldados foram Combatentes, são hoje Antigos Combatentes ou Veteranos, mas, sobretudo, são iguais. Não há, entre eles, diferenças de género, de missão ou de função. São Veteranos e foram soldados de Portugal. É assim que deve ser. Em Portugal ou no estrangeiro, no Continente ou no Ultramar, na Metrópole ou nas Colónias, as Forças Armadas portuguesas marcaram presença em vários teatros de guerra e em diversas circunstâncias. Militares portugueses lutaram em terra, no mar ou no ar, cumpriram os seus deveres e executaram as suas missões. Em Goa, em Angola, em Moçambique, na Guiné, no Kosovo, em Timor ou no Iraque. Todos fizeram o seu esforço e ofereceram o seu sacrifício, seguindo determinações políticas superiores. As decisões foram, como deve ser, as do Estado português e do poder político do dia. Mas há sempre algo que ultrapassa esse poder. O sacrifício da vida implica algo mais que essa circunstância: é, para além das vicissitudes históricas e dos ciclos de vida política, a permanência do Estado. Os soldados cumprem as suas missões por diversos motivos. Por dever. Por convicção. Por obrigação inescapável. Por desempenho profissional. Por sentido patriótico, político ou moral. Só cada um, em sua consciência, conhece as razões verdadeiras. Mas há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate. Na verdade, em todos os episódios de guerra referidos e noutros mais, há fenómenos de natureza diversa. Houve decisões políticas de carácter exclusivamente nacional, mas também houve actos de colaboração em missões multinacionais, como houve decisões estratégicas colectivas das alianças de que Portugal é membro. Também conhecemos decisões políticas tomadas em vários quadros: com e sem legitimidade democráticas, com e sem referenda parlamentar. E até, finalmente, situações em que o Parlamento fica aquém daquela que deveria ser a sua função. Com efeito, a Constituição e as leis não obrigam, infelizmente, a que as missões no estrangeiro sejam aprovadas pelo Parlamento. Apenas admitem o “acompanhamento do envolvimento” militar no estrangeiro, o que nem sempre é rigorosamente cumprido. A análise destas diferenças pode ser importante do ponto de vista político, histórico e intelectual. Mas, no plano do reconhecimento de um povo, do respeito devido e do esforço do soldado, essas distinções são secundárias ou inúteis. Foram, simplesmente, militares portugueses que tudo deram ou tudo arriscaram. É esse o reconhecimento devido. Um antigo combatente não pode nem deve ser tratado de colonialista, fascista, democrata ou revolucionário de acordo com conveniências ou interesses menores. A sua origem, a sua classe social, a sua etnia, as suas crenças ou a sua forma de vínculo às Forças Armadas são, a este propósito, indiferentes: foram, simplesmente, soldados portugueses. Pelo sacrifício, pela duração e pelas implicações políticas, as guerras do Ultramar foram evidentemente as que mais marcaram as gerações das últimas décadas. Mas, ao longo dos trinta anos de democracia e de compromissos internacionais, muitas centenas ou milhares de cidadãos portugueses estiveram presentes em teatros de guerra e em missões de protecção da paz ou de mediação. Novos sacrifícios foram feitos, vidas foram interrompidas, carreiras e famílias suspensas. Todos esses militares, os de Luanda ou do Líbano, os da Guiné ou da Bósnia, merecem o nosso respeito. São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos. Nós, todos, os que fizeram ou não, os que concordaram ou não com as guerras, sem distinção de época, de governo ou de cor política. Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos. É certo que há, aqui e ali, expressão de gratidão ou respeito, numa unidade, numa autarquia, numa instituição, numa lei ou numa localidade. Mas, em termos gerais e permanentes, o esquecimento ou a indiferença são superiores. Sobretudo por omissão do Estado. Dos aspectos materiais aos familiares, passando pelos espirituais e políticos, o Estado cumpre mal o seu dever de respeito perante aqueles a quem tudo se exigiu. Em cada momento, em cada conflito, houve quem tivesse ideias diferentes e se opusesse à intervenção militar. Uns, mesmo nessas condições, cumpriram as ordens oficiais, outros recusaram-se. Por oportunidade, por convicção política, por uma interpretação diferente do interesse nacional, houve refracção e objecção. Em certos casos, pensava-se que as operações militares não tinham sido referendadas pelo povo soberano ou eram contrárias à ética e ao interesse nacional. Noutros casos, faltava o assentimento parlamentar. Aliás, o acompanhamento parlamentar do envolvimento militar é deficiente, apesar de estatuído pela Constituição. Houve soldados que combateram sob um regime autoritário, outros em regime democrático. Houve soldados que combateram integrados em forças nacionais, outros em forças aliadas ou internacionais. Como houve soldados que, de outras origens étnicas então e tendo hoje nacionalidade diferente, serviram nas Forças Armadas portuguesas. Em 1974, jovens militares decidiram derrubar o regime autoritário e dar uma oportunidade à democracia. Outros tentaram estabelecer um novo regime político que eventualmente limitaria as liberdades. Outros ainda ficaram independentes e equidistantes. Enquanto outros, finalmente, teriam preferido continuar sob o regime anterior. Prefiro os primeiros, os que ajudaram a fundar o Estado democrático. Mas, pelo sacrifício das suas vidas e pelo cumprimento dos seus deveres, respeito-os todos. Qualquer guerra ou envolvimento militar é controverso e suscita opiniões diversas e contraditórias. É assim no Afeganistão ou no Iraque. Foi assim no Ultramar. Como também na Flandres, nas Linhas de Torres ou em Aljubarrota. Essas divergências podem ser legítimas e compreensíveis. Traduzem ideias, interesses, convicções e doutrinas diferentes. Assim como versões diversas do interesse nacional. Mas isso não justifica a ausência de respeito por aqueles que combateram, que correram riscos, que ficaram feridos ou deram a sua vida. As diferenças de opinião e de crença não devem impedir de respeitar todos os que fizeram a guerra, com convicção ou por obediência ao poder político, desde que, evidentemente, o tenham feito sem abuso. Merecem as pensões que lhes são devidas. Merecem atenção e cuidado. Merecem um Dia do Combatente oficialmente estabelecido. Merecem que as suas associações sejam consideradas de utilidade pública. Merecem estar presentes nas cerimónias públicas e oficiais. Mas sobretudo merecem respeito. Os Portugueses são parcos em respeito pelos seus mortos e até o Estado não é muito explícito no cumprimento desse dever. Pois bem: está chegada a altura de eliminar as diferenças entre bons e maus soldados, entre Veteranos de nome e Veteranos anónimos, entre recordados e esquecidos. Pela Pátria ou pelo seu País, pelo Estado ou pela sua profissão, foi pela sua comunidade nacional que todos eles combateram e se sacrificaram. É possível que o comportamento do Estado, a atitude de políticos e os sentimentos de cidadãos para com os militares sejam determinados, em parte, pela avaliação que se faz do modo como deram ou retiraram apoio a certos dirigentes e a certas formas de regime. Não se nega o facto. Mas, perante o antigo combatente, recusa-se o juízo de valor. Aos Veteranos e antigos Combatentes que hoje estiveram connosco pela primeira vez, nada se lhes pede. Nada devem aos seus contemporâneos. Nós é que estamos em dívida para com eles. São o Estado e a sociedade que lhes devem algo. O que lhes pedimos hoje foi muito simples: aceitem a homenagem que o Estado e os Portugueses vos prestaram! Não estamos aqui a festejar a guerra, mas sim os soldados! E não há melhor dia, do que o Dia de Portugal, para o fazer.

Obrigado, António Barreto!
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