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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

MOÇAMBIQUE - 7 DE SETEMBRO

42 anos depois!

Que ninguém alimente dúvidas, ainda, tantos anos depois!. Os mentores do 7 de Setembro e a multidão, de várias etnias, que se manifestou, não tinham por objectivo impedir a Independência de Moçambique. O único desiderato era que o novo País não fosse entregue a um só partido armado e à consequente sovietização, que se veio a confirmar, ao arrepio da vontade do seu Povo.
Vejo, por aí e por aqui, muito pessoal a celebrar o 7 de Setembro, como se esse dia, o do Acordo assinado em Lusaca, segundo a vontade dos "heróis" de Lisboa, mas ao arrepio da vontade das populações de Moçambique, as mais interessadas no Futuro daquele território, e as reacções espontâneas que ele provocou e se seguiram, fossem um marco glorioso da Independência. Escribas, para quem, o descontentamento manifestado por largos sectores da vida moçambicana, de todas as cores e ideologias, com epicentro no RCM e em que se empenharam por fazer ouvir a sua voz, representantes de vários movimentos independentistas, mais tarde, cobardemente abatidos, não terá passado dum acto meramente reaccionáro.
A Independência, ninguém no seu perfeito juízo, a renegava ou tentaria impedir. Nem haveria outro caminho, mesmo para as mentes mais recalcitrantes e saudosistas do colonialismo. O que esteve em causa foram os vícios de forma, a roçar a traição, como ela foi precipitada, ao entregar Moçambique nas mãos dum partido armado, com inspiração em sistemas estranhos que nada tinham a ver com o sentir das gentes moçambicanas.
Os anos que se seguiram, comprovaram-no. Para desdita de muitos milhares, pretos e brancos, que se viram subjugados a um Poder que não escolheram, por vontade de gente estranha, alguma da qual nunca havia pisado aquele território, e que se dizia paladina da Democracia pluralista.
Que viva Moçambique independente, que o Povo daquela maravilhosa terra alcance e viva o progresso e seja feliz, que é o que, Hoje, importa, que a História deu os seus passos e não tem retorno, mas que, os que ora celebrem com tanto afã exibicionista a derrota dos que procuravam um Moçambique Livre de escolher o seu destino, ponham as mãos na consciência, que festejem a justa conquista dum novo País, mas que não construam cenários e frases ofensivas para quem se manifestou, então, contra a forma insana de que se revestiram os acontecimentos daquele 7 de Setembro e as décadas de sofrimento e tirania a que o Povo moçambicano foi sujeito!
Que se, ao terceiro dia, se ouviu a senha do "galo amanheceu", não vejo necessidade de andar por aí tanta gente a cantar de galo....ou a cacarejar!


terça-feira, 6 de setembro de 2016

VAI FORMOSA E NÃO SEGURA

O que vamos lendo e ouvindo, com mais acuidade nos últimos tempos, mesmo tendo eu por princípio que prefiro um culpado livre que um inocente preso, leva-me a crer que, provavelmente, mais por culpa dos legisladores do que dos Tribunais, há uma franja iluminada da nossa Sociedade que se preocupa mais com a garantia dos direitos dos arguidos que das suas vítimas.
É um mau sintoma. Este e outros factores, que todos vamos conhecendo e se vêm multiplicando de forma assustadora, sinaliza-nos que estamos ficar mais próximos duma sociedade em que se colhem mais benefícios estando fora da Lei, do que respeitando os valores pelos quais se deve reger um Sociedade equilibrada e onde a segurança permita viver em Liberdade democrática.
Pior, depois das cenas que vi no Bairro do Cerco, cheguei à conclusão que, ao contrário de que imaginava, aquela série televisiva de há 25 anos, A BALADA DE HILL STREET , não foi só pura ficção!
O que me preocupa é que estamos a ficar com muitos Hill Street e, a continuarmos neste rumo, muitos mais virão!
Mas, "não passa nada"! Aparecem uns filósofos baratos e outros teóricos, pelas televisões, a explicarem o fenómeno....e ficamos todos em Paz e segurança! Como a formosa Lianor....

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O VIRA E O SAMBA

O pessoal radical, o de cá, que navega nas ondas de Maduros e Morales, tem que parar para reflectir, antes de embarcarem nesses cruzeiros da tonteira e da incoerência.
Passam o tempo a clamar que estamos em Democracia e que o respeito pela Constituição é fulcral num Estado de Direito e, também por isso, se devem sentir moralmente obrigados a parar para pensar!
Em Portugal, invocaram a Constituição, a tal Vaca Sagrada, e bem, para impedirem a força política que ganhou as eleições de governar, unindo os perdedores em torno duma geringonça, que governa.
Quanto ao Brasil, já entendem de maneira diferente, que foi golpe de estado, que foi atentado à Democracia, quando todos sabemos que o afastamento da Dilma foi feito no estrito respeito pelos parâmetros constitucionais da Lei Maior brasileira.
Se bateram palmas, rejubilaram e dançaram o vira no espaço luso, porque se exaltam e vociferam, recusando dançar o samba do Brasil?
Não precisam responder! Eu sei. A Constituição só merece respeito quando satisfazem as vontades ou os caprichos das Esquerdas Radicais. Por mais que nos cansemos de lhes sussurrar aos ouvidos: É a Democracia, estúpido!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

DILMA, MADURO e MORALES

Poucos serão os jornalistas portugueses e mesmo estrangeiros, a quem não ouça ou leia condenarem o afastamento de Dilma! Há mesmo quem suporte que terá sido um Golpe de Estado.
Afinal, questiono eu: não foi pela via democrática, pelo respeito pela Constituição brasileira que os brasileiros disseram "Tchau, Dilma"? Não foi pelas armas. Foi um órgão constitucional, previsto na Lei maior do Brasil, quem, no uso das competências legais,  votou e decidiu.
Mas, até compreendo a estranheza. É que, por cá, em décadas, governantes houveram e haverão que tiveram idênticos ou piores crimes de responsabilidade e nenhuma instituição os mandou borda fora. Mesmo sabendo que as Constituições e competências dos órgãos institucionais, sejam diversos!
Mas, o que eu mais relevo é que, de imediato, países como a Venezuela e a Bolívia, venham manifestar tanta solidariedade com Dilma, ao ponto de cortarem relações diplomáticas com o Brasil.
É que, se pensarmos um pouco, chegamos à conclusão que, afinal, Dilma estava a conduzir o Brasil ao mesmo destino a que Maduro e Morales conduziram os seus países e o seu Povo. À miséria total!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O COFRE DOS VAMPIROS


ORÇAMENTO RECTIFICATIVO

23FEV2016
"Tivemos nos últimos quatro anos 12 orçamentos. Chegou a hora do país viver em normalidade.
...... “Eu sei que o país está mal habituado, porque não houve ano nenhum do anterior Governo em que não houvesse, pelo menos, um Orçamento Rectificativo. Tivemos nos últimos quatro anos 12 orçamentos. Chegou a altura do país viver em normalidade. Em normalidade com a Constituição, com as famílias, tendo tranquilidade com os rendimentos que vão ter, normalidade para as empresas quanto ao cargo jurídico em que vão poder investir, normalidade da nossa relação com a Comissão Europeia e na execução orçamental.
” in R.R. 
 
AQUI
Todos poderemos compreender que, para situações inopinadas, e elas sucedem-se neste ciclo infernal de incertezas por toda a U.E., não há como evitar um orçamento rectificativo.
O que eu relevo é a leviandade com que o actual PM faz promessas e vinca desideratos que não sabe, à partida, serem exequíveis.
Useiro e vezeiro em fazer a destrinça da governação da geringonça com os governos anteriores, cai no exagero, para alguns, no ridículo. Que o Povo é sereno, mas não estulto, no seu todo.
Os cidadãos merecem mais respeito e têm o direito de exigir que os governantes pensem antes de falar e que lhes não acenem com eldorados manipuladores.
Porque, é da sabedoria popular "NUNCA DIGAS DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI"!



terça-feira, 23 de agosto de 2016

OXALÁ, OXALÁ!

Depois de ler ISTO e outras avisadas previsões, por mais que o não queiramos, é com preocupação que vamos tomando consciência do que teremos, num horizonte mais breve do que muitos pensarão e não desejam, perante a apatia de pessoal que até é inteligente e informado, mas sofre de "partidarite aguda", vive em estado de negação, provocado por aquele vírus a quem alguns dão o nome de "complexo de Esquerda".....
É que, se em vez da geringonça, estivéssemos quase um ano, como Espanha está, sem Governo, talvez nem perdêssemos toda a credibilidade junto dos investidores estrangeiros, junto dos parceiros económicos e junto das empresas nacionais e dos donos do capital intramuros....
Como diria qualquer médico, antes sem medicamento algum, do que com um que não ataca a verdadeira doença e provoca outras bem mais gravosas!
Por mim, se me dessem a escolher entre o Céu e o Inferno, eu escolheria o Purgatório que, se o Céu me é inatingível e o Inferno me queima, no Purgatório sempre vou respirando e esperando por subir mais um pouco.
Oxalá estejam enganados. Oxalá eu seja um pessimista! Oxalá!

domingo, 21 de agosto de 2016

ATENTADO À PRIVACIDADE

Não muda nada. Não altera o princípio constitucional. Sejam 10, sejam 20, sejam 50.000.
Se a Lei do "Enriquecimento Ilícito", que só seria aplicada em casos de sinais exteriores de fortuna não justificada e sempre a cargo dum Juiz, do Poder Judicial, não tem passado, por se invocar a Constituição, como é possível que os cobradores de impostos, ou um qualquer "capataz" hierarquicamente na dependência do Governo, ao serviço dum Poder Executivo, espiolhem as poupanças que cada um guarda nos Bancos?
Isto é uma afronta à privacidade dos cidadãos, tenham eles saldo de 10, 1000 ou 2 cêntimos na conta. Mais, é o primeiro passo para um Estado de bufos, de vasculhadores da vida de cada um de nós, numa Democracia que elege e apregoa a Liberdade como valor primeiro.
Dêem-lhes as voltas que quiserem, vistam-lhe as roupagens que entenderem, isto é um sinal eloquente do provável terceiro mundismo que poderá grassar nas cabeças duma geringonça alienada!

Digo eu, que sou um teso e estou à vontade. E, até disponibilizo o NIB para o caso de algum "amigo" me quiser engordar a conta até aos 50.000 ou pagar-me uma viagem de avião até um dos destinos onde o meu Benfica vai competir na Taça dos Campeões Europeus!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

TERMAS DE S. PEDRO DO SUL


O elenco promete. As Termas merecem! Lafonenses e visitantes, também!

QUALIFICA

Preparemo-nos, que, segundo se ouve e lê, vem aí a reedição das "Novas Oportunidades", aquele programa socretino que nos levou milhões e mais não serviu que não fossem as estatísticas (o desemprego desce) e uns milhares de canudos a pessoas que, no dizer dos próprios, ficaram a saber o mesmo que sabiam quando iniciaram aquela gestação educativa de nove meses!
A geringonça, vai chamar-lhe, agora, "QUALIFICA".
Muda apenas o nome e eu não mudo a minha convicção de aquilo, no geral, que uma ou outra excepção terá havido, é uma treta e mais não serve do que para enganar o Povo, a UE e delapidar mais uns largos milhões do dinheiro de todos nós.
Só poderei mudar de opinião, quando e se o actual governo vier a público reconhecer os erros, o retumbante fracasso das Novas Oportunidades do anterior governo PS e se proponha a apresentar caminhos que eliminem esses erros e que o novo programa, para além dos objectivos políticos que referi acima, não sirva apenas para fazer doutor qualquer burro (salvo seja) que, para lá das mesmas orelhas, ficará com igual Saber e competências!
Há muito onde investir esses milhões, mormente nas estruturas de lares para idosos e apoios sociais de toda a ordem, que não seja uma ilusória baixa do desemprego e um galhardete educativo dependurado no mesmo pedestal de iliteracia que é marca deste País!
O caminho educativo não é este! Como já se provou!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

HIPOCRISIA POÉTICA

Nesta calamidade dos fogos, a que Lafões não é imune e que sofre, na carne das gentes e no corpo da Natureza bela que é berço daquela Região, não embarco na nau dos que fazem dos fogos armas de arremesso político, o que não é a mesma coisa que entender e exigir que se apurem responsabilidades e se reconheçam eventuais erros nas acções de prevenção e combate, se, por mais não for, para ensinamentos futuros.
Bem sabemos que, como já por aqui deixei nota, que o Mundo "pulou e avançou" (para o Bem e para o Mal), sem que, nas últimas décadas, os responsáveis políticos, acompanhassem esse pulo e esse avanço, no que há defesa da Floresta diz respeito.
Mas, isso não me impede de reflectir sobre o comportamento dum partido conotado com a Esquerda Radical, que, Hoje, é peça da geringonça governativa e que, desde sempre, mormente nas chamas de 2015, imputava aos governos a culpa pelas catástrofes, pela sua incompetência em evitar e combater os incêndios. Não faltam registos desses autos condenatórios, ao estilo das Cantigas de Escárnio e Maldizer.
E, porque, até nas utopias da raiva, há Poesia, sou levado a crer que, o silêncio, a quebra abrupta desse estilo de imputar aos governos todas as culpas pelas incontroláveis e destruidoras chamas que esforçados bombeiros combateram com denodo e as populações sofreram com resiliência, neste ano que foi dos mais cruéis das últimas décadas, o Bloco de Esquerda, abandonou aquelas Cantigas e passou a recitar Poesia Lírica, do género
" ...É fogo que arde sem se ver".....
É a hipocrisia poética!

DOCE LAFÕES

Mais doce, ainda, para quem vive fora de portas e tem o privilégio de ser contemplado, de quando em vez, com as guloseimas geradas nas terras que lhe deram chão e vida!

domingo, 14 de agosto de 2016

CHAMAS NO SÃO MACÁRIO

O Vouguinha que tem trazido, por aqui, referências  a tenacidade dos habitantes das aldeias do S. Macário, que teimam em combater a desertificação que vai grassando pelo Interior do País, para lá da originalidade daquelas milenares povoações dispersas por serranias de rara beleza, não pode deixar de comungar deste momento aflitivo que vivem as suas gentes e os esforçados bombeiros que lutam, desesperadamente, para que as chamas que lhe chegaram desde Arouca, não destruam o que a Natureza lhes legou.
É para todos eles o meu pensamento, neste Domingo sofrido, para quem vive com raízes naquelas terras e para os que os admiram e se extasiam com aquelas serranias que já foram floridas!
Coragem e que nunca lhes falte o ânimo para ultrapassarem as agruras destes dias de luta contra as chamas!
Populares e Bombeiros!


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O FOGO DE ANTES E DE AGORA

Sem pretender uma incursão técnica ou exaustiva a propósito da calamidade que se abate sobre o território nacional e cujas consequências para pessoas e bens, nos deixam, inevitavelmente, deprimidos e,  de forma simples, sem jogos florais e outras pesadas roupagens, que o calor dispensa, volto ao que sempre disse por aqui e que não será justificação plena, mas lembremo-nos que, por esse tempo, o de ANTES, em que os tractores eram de quatro patas, comiam palha e viviam em currais, os agricultores, que cuidavam dos seus campos e não lhes deixavam entrar mato, cortavam o estrume dos pinhais para forrarem os currais do gado e, até, para fazerem o "adubo caseiro", depois,  substituído por químicos. Nas aldeias, as donas de casa, iam ao molho de ramos e arbustos secos ás matas, que era o combustível das lareiras e dos fornos comunitários. Acresce que, por esse tempo, as mais remotas povoações não estavam quase desertificadas e, sempre que havia notícia duma ignição, eram os próprios habitantes que dominavam as chamas, logo à nascença.
AGORA, o panorama dos campos é outro? É.
Como, aliás, tudo se alterou. E aí é que está o problema. É que essa alteração do panorama do território não foi acompanhado de medidas correspondentes, que substituíssem aquela normalidade anterior. Vimos o "Mundo a pular e avançar", para o melhor e para o pior, e os responsáveis, neste campo, ficaram a marcar passo na parada do ANTES , sem que pulassem e avançassem nas medidas que urgiam ser tomadas e consentâneas com a nova realidade, a do AGORA.
E que, perante a apatia política, alguns estranhos interesses se foram criando?! É natural...... Como em tudo, na Sociedade em que vivemos.
Mas, não é aqui, ou só aqui, que radica o flagelo dos incêndios....
O que falhou mesmo foi o salto do ANTES para o Agora. Que não foi feito. No terreno, onde tudo se passa!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

IMPOSTO DE PALHOTA


O Sol que se não esconde, não permite que esqueçamos aquelas nuances do imposto soalheiro, em cuja gradação têm voz quente e activa as rotinas do nosso Astro-Rei.
Sendo o IMI, um sucedâneo da "contribuição autárquica", um, imposto que tem tudo a ver com as Autarquias, estranhei o silêncio da Associação de Municípios Portugueses.
Tendo-a lido, ainda não há muitos dias, num manifesto em que se insurgiam contra eventuais cortes dos fundos comunitários, só hoje, e apenas para constatar não ter sido ouvida na questão do IMI, deles apercebi uma leve abordagem ao assunto que, mais do que aos municípios, pode interferir, de modo gravoso, na bolsa dos fregueses e munícipes.
E, recuo no tempo, para recordar quando aquela Associação, mesmo emparelhada partidariamente com o Governo de então, enfrentava sem complexos, nem qualquer subserviência, o poder central, sempre que estavam em causa os interesses de quem os elegeu e lhes deu pódio autárquico e representatividade.
Perante isto, este silêncio ensurdecedor actual, o Vouguinha sente-se no direito de pensar que, quando a fidelidade canina, a "clubite" partidária, é mais forte que a defesa dos direitos dos munícipes, mal vai um País e fraca é a confiança de que são credores aqueles que, em campanha, juraram por todos os santinhos e divindades, estarem sempre, sempre, ao lado do seu Povo!
A menos que já tenhamos uma geringonça municipal!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A GERINGONÇA DA DÍVIDA

Começar o dia a lembrar "misérias" nem será de bom tom. Mas, também nestes temas que nos devem preocupar, não se resolve nada metendo a cabeça na areia, mesmo que levantando a crista da revolta pouco ou nada resolva, nesta terra de geringonças e "cheira cús".
Não é retórica, mas dado objectivo, que a DÍVIDA, aquela malvada que nós, os filhos e netos teremos que pagar, aumentou exponencialmente nestes seis meses de governo dos partidos de Esquerda, politicamente amancebados... ou atrelados.. É factual. Não há como escamotear a realidade.
Convido-vos a fazerem um esforço de memória e numa retrospectiva de alguns anos, imaginarem a chinfrineira, a batucada infernal que todos os partidos, então, na Oposição, não fariam! Nas ruas, nas rádios, nas televisões, nos megafones da raiva!
Mas, se do Bloco de Esquerda, nada me espanta, que não lhes dou suporte de verticalidade política, que até se sentirá feliz na sua condição de peça adventícia da geringonça, já o silêncio e a postura dos comunistas que, malgrado as suas utopias ultrapassadas, sempre colheu de mim algum respeito pela coerência, nas ideias e nos actos, me deixam estupefacto. Pelo silêncio cúmplice a que estranhos laços os atam a esta geringonça em marcha descontrolada para o abismo.
A Dívida, essa, fria, calculista, a trote, a galope, com o freio nos dentes, vai disparando, enquanto esta Esquerda alienada nos vai sugando a magra bolsa com impostos, assusta os investidores, definha no crescimento, num socialismo que vai tendo mais de venezuelano do que Democracia europeia!
Digo eu, que sou pessimista!

sábado, 30 de julho de 2016

NO REGAÇO DO ÍNDICO

Dizem ser a terceira maior Baía do Mundo.
Para mim, é a mais bela! Um espelho no Índico,  a reflectir o azul do Firmamento!

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS....

Como disse a grande Senhora e Poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen,
"Vemos, ouvimo e lemos. Não podemos ignorar..."

sexta-feira, 29 de julho de 2016

CONTO ARQUIVADO

Escrevi-o em 1978. Pouco mais de uma década depois da situação real que me inspirou o conto!

Amanheceu depressa aquele Domingo de Outubro, 1967.

No largo do Posto, mal o sol espreitou, bochechudo, por entre os cajueiros da mata, sentavam-se velhos negros, encolhidos nas capulanas de caqui barato. Esperavam, em triste paciência, carpindo para os cipaios madrugadores todas as desventuras da sua noite mal dormida.
- Senhor, tem ali gente com milando grande! – anunciava, solene, no seu jeito sério, o Cabo Sanica, chefe incontestado dos cipaios administrativos da região.
O Carlos, ensonado, digerindo uma agitada sessão de king, levantou a esteira da janela baixa e lançou um “já vou” em contrariado bocejo. E o Sanica, depois de uns desajeitados salameleques, foi regressando para junto do grupo.
O Carlos era um jovem de 19 anos. Viera, havia pouco mais de um ano, das serranias beirãs para aquele sertão africano fascinante e medonho, belo e arrepiante; caixa grande de mistérios que, sonhador, se propusera desvendar. E os negros da área achavam graça àquele “menino branco” idealista, ao seu espírito aventureiro e despreocupado, qual fruto verde em chão maduro!... Mas, talvez por isso, representava a seus olhos a rampa de lançamento, através da qual faziam chegar até ao Administrador de Balama a sua nave recheada de lamentações, pedidos e mal disfarçadas exigências.
O Administrador era já pessoa idosa, vestuta, que eles não ousavam incomodar, talvez por respeito às barbas majestosas implantadas numa carranca sisuda. Era um cabo verdiano letrado, da Ilha de S. Vicente, branco ou crioulo oxigenado, e chefe duma interessante família, pessoas de educação esmerada.
Quando o Carlos, ainda esfregando os olhos, foi ao encontro do ajuntamento, por entre um interminável coro de salamas, viu naqueles rostos de ébano um problema maior, bem diferente das choramingas questões a que já o haviam habituado.
- Então o que se passa? O içar da bandeira é só às oito horas e vocês vêm para aqui tão cedo? – perguntou, em tom de graça para desenferrujar a língua muda do régulo Momola, um bondoso preto de carapinha grisalha, ancião influente, guia espiritual duma população e duma área mais vasta que todo o Alentejo; era admirado pela sua sabedoria e pela verdade com que manifestava os anseios do seu povo, de que era mandatário de linhagem.
- Tem garramo muito mau, senhor adjunto, está comer nosso povo!... nosso pede ajuda, está sofrer muito..., e continuava a explicar-se o melhor que sabia, no seu português estudado na universidade das suas velhas rugas.
Depois, todos foram dando achegas, em alvoroço: que era velho o leão solitário; entrara, noite dentro, numa aldeia do Lúrio e levara a mamana do Jamisse; mas que andava havia já muito tempo na região, pois saciara a sua sede e fome carniceira em dezasseis vítimas, homens, mulheres e crianças...
- Então porquê só agora vêm dizer-mo?
- Ah, senhor, nosso andava a preparar armadilha, mas aquele garramo não tem bom, não! Tem esperto no cabeça: ginga, ginga, e não deixa apanhar...-, e continuaram todos a descrever as animalescas façanhas da fera.
Pelo que os desventurados negros narravam, não era nada comum o comportamento do bicho. Aqueles métodos manhosos assentavam melhor no leopardo, mas não no leão, um animal feroz mas leal na sua agressividade.
Por tradição nativa, antes da imposição dos aldeamentos, uma família agrupava-se dispondo em círculo as suas palhotas maticadas, cobertas de capim seco e porta de bambu. Surgiam, assim, pela floresta, núcleos habitacionais de quatro, cinco, seis casas, em cujos intervalos brincavam os putos do clã.
E a velha fera, ao que contavam, bacharel em caça, não se fazia rogada: alta noite, abeirava-se mansamente e esgadanhava as unharras na parede frágil da palhota onde se alojavam os catraios da família. E, enquanto os pais dormiam na casa ao lado, a uns escassos dez metros, os miúdos acordavam assustados, gritando pelos “velhos” em desespero. Mas o leão não forçava a entrada. A mãe dos garotos acorria aos gritos aflitivos dos filhos e era recebida pelo leão, de bocarra aberta, que a arrastava, presa nos seus caninos devoradores, para longe, pois o macabro repasto era sempre em recatada sala de micaias, na selva fechada.
Era este o ardiloso estratagema, como já referi, pouco comum no comportamento habitual dos leões, mas utilizado nos casos concretos que o Carlos foi ouvindo com um misto de estupefacção e medo, enquanto coçava a meia dúzia de pêlos que lhe despontavam no queixo esguio.
Que raio! Por aquela é que ele não esperava! Fôra caçador, sim senhores, de pardais descuidados, de melros desaninhados, caídos na sua fisga infantil..., mas qualquer cão rafeiro o fazia fugir, hirto de medo, só pelo ladruçar raivoso, quanto mais uma fera daquelas!...
Mas não era ele o adjunto do posto, aquela gente não viera até ele procurando ajuda?! Não se sentia, pois, no direito de lhes defraudar a expectativa... e eis o Carlos a encher o peito de ar,, a vestir rija pele de valente, enquanto ia vertendo consoladoras promessas de justiça e vingança nos coações condoídos pela perda de familiares.
A seguir, foi vê-lo, qual D. Quixote do Índico, a preparar os seus bravos Sanchos e a escolher as armaduras com que havia de partir os dentes ao assassino.
A caçada ía começar...
- Sanica, chama mais dois cipaios. Traz também a tua Mauser. Vê se o Land-Rover tem gasóleo... e vamos embora!
- Senhor adjunto, o senhor administrador não tem de saber? – lembrou o cabo, em respeitoso reparo.
- Tem, pois é... vai lá dizer-lhe, enquanto eu vou buscar um bom´4e, mas se estiver a dormir deixa o recado à senhora ou ao mainato.
Entretanto, o numeroso grupo corria já em direcção ao povoado. Iam dar a nova e preparar toda a gente para a batida. Conhecedores dos caminhos secretos da mata densa, encurtavam muito os cerca de quarenta quilómetros que, por estrada, os separava do Lúrio.
O Carlos não levava a Mauser, como os cipaios. Não simpatizava com aquela espera-pouco de madeira, muito menos do seu coice demolidor. Só mais tarde lhe viria a reconhecer vantagem. No momento, preferiu munir-se de uma pequena pistola-metrelhadora FBP que o governo lhe havia distribuído.
Já acomodado no jeep cinzento, o cabo e o adjunto na cabina e os outros dois lá atrás, na caixa larga, passaram pelo barracão do posto, para o abastecimento. Este barracão era um misto de armazém e fábrica de curtumes, um casarão de troncos de umbila e capim seco, onde, por entre tambores de gasóleo e outras mixórdias, se espalhavam as peles que o administrador Barbosa, o grande senhor da terra, ia coleccionando, sabe-se lá se para fazer jus à sua nobre condição de herdeiro de Mouzinho...
Brilhantes as de jacaré, pardacentas as de itata, muito valiosas seriam as de leopardo, mas as esteticamente mais sugestivas eram as de zebra, pelo desenho artístico, a duas cores: a preta, dos naturais, a branca, dos europeus. Num canto do armazém, com as mãos sabujas de unguentos, o negro Majemba, químico de ocasião, amanhava mais uma pele de lince que ía exalando um odor horripilante.
- Não podemos demorar! A esta hora já o Momola com a sua gente está a chegar ao Lúrio...
- Ainda, senhor. Parece agora estão passar Monte Nivato, - resposta pronta do Sanica, com um sorriso sabe-tudo nos lábios gretados pela suruma, enquanto apertava a espingarda contra as cabedulas de caqui branco, domingueiro.
O jipão rosnava forte na picada estreita, cabrito da serra, de pedra em pedra. Estremecia, pulava, parava, acelerava, que o piso de matope esburacado, ondulado, mais parecia o mar encrespado ao largo de Matosinhos. Mas o Land-Rover era uma boa traineira, concebida para sulcar aqueles caminhos improvisados na selva, onde nunca haveriam de chegar os “pidacs” e os “feders” da CEE. Surpreendente era, também, a resistência daqueles pneus a que nem mossa faziam as mordeduras constantes de troncos salientes espreitando, disfarçados, nos tufos de capim verde.
Uma viagem assim era um verdadeiro exercício físico, ainda mais desgastante que viajar de Aveiro a Vouzela na velha automotora da Linha do Vale do Vouga!...
- Ué, mocunha, já viu aquele macaco todo?! – e o Sanica apontava, com as duas mãos espetadas na janela do carro, - come a machamba toda!
A uma centena de metros, os mais brincalhões habitantes da floresta, almoçavam lauto banquete: uma refeição gratuita, servida pelo suor dos nativos que, e não só por isso, detestavam a macacada.
O Carlos afrouxou e parou o carro, ensaiando fortes aceleradelas, no intuito de os amedrontar. Os bichos olharam curiosos e, depois de estudarem a situação, continuaram a ladroagem, arrancando à terra, com primata avidez, enormes tarolos de mandioca que devoravam sem cerimónia. Os mais velhos carregavam às costas pequenos filhotes de pêlo azulado, tupilis reguilas, mas imaturos nos trabalhos de pilhagem.
- Sanica, corre-os a tiro!
O cabo esfregou as mãos contentes, saiu da cabina e... pum!.. o macaco mais corpulento tombou, de ventre para o ar, lançando gemidos que confundiram o Carlos. Aquele choro aflitivo tinha qualquer coisa de humano, de súplica desesperada.Com a cabeça entre as patas, como que a rogar clemência, o bicho foi-se virando, lentamente, até que sucumbiu, encostado a um ramo de mandioca.
Os outros, nem vê-los! Haviam fugido para as árvores mais altas e frondosas, onde aguardariam, nervosamente, que os primos inteligentes, mas bem mais maldosos, abalassem.
- Hoje já tens almoço, Sanica!
Este, com um trejeito comprometido, olhou de novo para trás, para a caixa do jeep, onde imaginava já uma negra caçarola bem cheia de saboroso caril de macaco, cozinhado com bastante piri-piri...
- Vou também dar um bocado ao Iussufo e a Jamú... – enquanto acenava com a cabeça na direcção dos dois cipaios que viajavam de pé, na retaguarda, como que prestando honras fúnebres à vítima ensanguentada do seu cabo.
Nem todos os nativos de Moçambique comiam carne de macaco. Faziam-no os macúas, mas, mesmo no seio desta etnia, só certos nihimos o incluíam no menú. Porque até na alimentação eram diversos os costumes dos numerosos grupos étnicos daquele país. Como o são, adiante-se, as suas crenças, dialectos, personalidade e anseios. Nestes aspectos, Moçambique é uma autêntica manta de retalhos, em que só o espírito de nação, que começa a despontar, e a língua portuguesa são factores de união.
- Ainda falta muito?
- Não, senhor. Depois do rio, além, é mais pouco-pouco -, e o Sanica acompanhava a explicação com um abanar calculista da mão direita.
O sol quente, trémulo de fogo, trepava, apressado e irreverente, pelas vastas escadas do horizonte, quando, finalmente, atingiram o Lúrio. Era um rio pouco caudaloso, mas um viajante longínquo, nascido lá para os contrafortes do Niassa: deixava, ao passar, uma vegetação luxuriante a embelezar as margens sonhadoras...
Para o atravessar, o régulo Momola e a sua gente, haviam, anos antes, lançado mãos da sua empírica engenharia artesanal: compridos troncos de árvores, dispostos de uma lado ao outro do rio, revestidos por esteira pacientemente urdida por mãos habilidosas, de bambus entrelaçados.
Mas era precisa muita atenção ao efectuar a travessia auto daquela ponte, pois fora idealizada e projectada bem à maneira daquela gente: à medida da largura da viatura utilizada pelo administrador, e nada mais...
Ao Carlos, novato naquelas travessias, mais acostumado a travessuras, não ocorreu que urgia reduzir a velocidade, para galgar sem problemas os primeiros troncos e... zás, o carro salta, estrebucha, o capô abre-se, corta literalmente a visão... o jeep segue, bate... e pára.
- Senhor, tem bom? – interrogam os olhos arregalados do Sanica, fitando o Carlos como se ele acabasse de fugir das amarras do purgatório.
- Não é nada! -, olhando para os lados e para trás. À frente só via aquela chapa cinzenta, barreira que lhe havia ocultado uns bons dez metros de ponte, estreita, como já vimos.
E o jovem Carlos, com nervosismo comprometido, acabou por se rir, quando perspectivou a frio a ridícula cena que durou segundos e podia ter absorvido anos de vida.
Lá para trás, bem no meio da ponte, os dois cipaios estavam ainda sentados, boca entreaberta, olhando, mudos, as águas impávidas e serenas correndo lá no fundo, a uns bons trinta metros. As suas armas estavam tombadas, em desalinho, na caixa da viatura. E pensou, refeito do susto, como teria sido possível atravessar toda a ponte daquela forma...

- Tens de perguntar ao Mussa como é que ele traz o capô solto! Aquilo não se solta de qualquer maneira!-, como se quisesse transferir para o pobre mecânico/desenrasca lá do posto, a sua azelhice e inexperiência, ali tão evidente.
O Sanica não respondeu e, quando ambos saíram do jeep, olharam ao mesmo tempo para os duendes perdidos na floresta, interrogando-se qual deles plantara aquele providencial jambire no azimute desvairado do carro!... Se não fosse aquela amorosa árvore, esperava-os o abismo profundo, na margem do rio...

Os dois cipaios cuspidos, ainda espantados, atravessavam já o resto da ponte, aconchegando nas cabedulas assustadas, as camisas desfraldadas pela queda livre a que se viram sujeitos.
- Vamos chovar o carro para trás! - , ordenava já o cabo aos dois cipaios. E chovaram...
Estavam, então, a uns escassos duzentos metros do povoado, onde por fim chegaram, aliviados.
O Carlos depressa esqueceu o acidente e retomou o entusiasmo pela caça que, afinal, ali o levara. Tanto mais que aquela multidão, como raramente vira, armada de zagaias, pontas de lança, arcos, flechas, catanas, machados, tambores, latas e apitos, e todo um sortilégio de instrumentos, lhe lembravam, com certa ironia, as hordas de Viriato nas serranias da Estrela.
Mas, para além do costumeiro cumprimento, uma vénia mal dobrada, aquela mole humana mantinha-se silenciosa, num descampado dominado por quatro mangueiras ramalhudas, onde pontuavam já frutos amadurados
O régulo Momola adiantou-se ao grupo, juntando-se aos recém-chegados, acompanhado de mais três ou quatro elementos, seus conselheiros tribais,, e um outro negro, ainda novo, armado de caçadeira: era caçador privativo de um europeu de Namuno que, casualmente, ali havia acampado e se dispusera a participar na caça ao leão.
Formou-se, ali mesmo, um “conselho da revolução” da caça, em que o Carlos desempenhou a cómoda função de moderador. Reconhecia, intimamente, ser o menos credenciado para ditar estratégias. Mas mostrou-se interessado e participativo e, sobretudo, prestava especial atenção aos experientes alvitres que íam surgindo. Estava ali, mais ou menos com a função do rei de Espanha: não governa, mas é um símbolo...
O plano para caçar o leão não era assim tão complicado! Consistia tão só em formar uma linha de nativos com os instrumentos sonoros e armas rudimentares de um lado do hipotético esconderijo da fera, enquanto os elementos com armas de fogo se emboscavam nos previsíveis pontos de fuga.
É que o Rei da Selva incomodava-se perante um ajuntamento grande e barulhento, habituado que estava à sua vida de anacoreta da mata silenciosa. E era com passada pachorrenta, com desprezo manifesto, que se virava, abanando a cauda, à arruaça que, do género, se lhe deparasse.
- Está tudo bem, mas onde encontrar agora o bicharoco? – e o Carlos olhava interrogativo para os seus pares.
- Nosso sabe, senhor, garramo tem além -, e o Momola apontava para a encosta arborizada do planalto ao fundo, e rematava, decidido: - tem junto do monte. Nossa gente leva lá...
- Vamos, então.
E o pequeno exército pôs-se em marcha pelos carreiros das machambas de mapira alta, de campos de milho com maçarocas douradas ao sol brilhante. Aqui e ali, iam ficando faixas rasteiras de amendoim e, mais adiante, fartos cachos de banana marrouce, dependuradas de troncos com larga folhagem.
Representava tudo o que ia vendo a base de subsistência, da vida daquela gente, numa economia mista, recolectora/produtora. Não era aquela, ainda, uma sociedade de consumo. Era a vitalidade de uma terra forte, que ofertava os frutos na medida do trabalho de cada um: quase sempre suficientes, sem excedentes, mas sem graves faltas.
Aproximavam-se já do monte, em cujas fraldas, de vegetação cerrada, estaria o refúgio do leão devorador. Mas nem o Momola, nem ninguém da aldeia, sabia indicar ao certo o local, tão vasta era a área.
- Vamos fazer a batida por bocados, Sanica?
A ideia era dividir toda a zona arborizada, entre a clareira e o monte, por faixas a bater.
Dividiu-se o pessoal: o da batida (a barulhaça) para um lado, os armados, para outro.
E a festa começou!
- Senhor adjunto, nós é melhor ficar ali. -, o Sanica apontava para um morro de mochem, abrigo natural para a espera. Os dois cipaios e o caçador foram-se, também, dispondo na zona.
Já o Carlos sentia um leve tremor do corpo, uns arrepios gélidos em sol escaldante, mas que se iam diluindo na azáfama. Tinha a impressão, sentia-o ao fitar os rostos excitados dos outros, que com feras daquela estirpe não se brinca.
Fosse pelos nervos, fosse pela fome – estava em jejum – o cara-pálida sentia um palpitar doloroso no estômago, quando se acocorou numa pequena saliência do morro baixo.
Era quase meio-dia. Um silêncio sepulcral dominava o ambiente. Nem um leve esvoaçar da passarada; nem o cair duma folha seca; o rastejar furtivo de uma cobra ou a corrida elegante e vaidosa de uma gazela!...
De repente, como o estropear da fúria louca de uma manada de elefantes rasgando a selva, como o alarido raivoso de mabecos em luta pela posse de um javali, a serra ecoa, o ar sacode-se. Todos aqueles tambores rufando, latas chocalhando e os sonoros berros das gargantas fortes dos nativos da batida, na outra orla da mata, impressionavam mais que o sapatear raivoso do nosso Parlamento em dias de polémica orçamental ou períodos eleitorais...
A selva tremia, o barulho aumentava, na justa medida que os batedores íam cruzando a mata em direcção aos emboscados. Só que já estavam bem perto, sem que o rei da selva aparecesse. Nenhum disparo soara, até ao momento.
- Ei, Sanica, o gajo não está cá! – diz o Carlos, quebrando a concentrada atenção do cabo, a focar a mata, rígido que nem uma marmota congelada.
- Parece não está, senhor -, sem, contudo, retirar os olhos desorbitados do arvoredo.
E não estava, de facto, naquela faixa. Deu-se o encontro dos dois grupos e leão nem vê-lo!
Curiosamente, nem um coelho, uma gazela, um javali, nenhum animal passara em frente dos emboscados. A esta constatação do adjunto, observou o caçador, com segura convicção:
- Pois não tem outro bicho, porque leão está por perto. Nosso vai encontrar, já viu patada dele...
O Carlos ficou a saber que numa área considerável em redor do palácio do rei leão, não havia lugar para outros animais menores: os súbditos, amedrontados, fugiam perante a presença ameaçadora do seu despótico amo.
E, a ser assim, nada estava perdido, tanto mais que haviam fortes indícios apontando para a presença próxima do devorador. Ía tentar-se a faixa seguinte.
E a operação repete-se.
Desta feita, à falta de outro abrigo, o Sanica sugeriu ao Carlos uma árvore velha de melala bifurcada. Era este o poleiro de espera para o mocunha, com a pele ardendo sob a inclemência do sol dum fim de manhã. Por baixo, brilhavam as micas soltas duma ribeira, seca naquela época do ano.
Enquanto esperava, de novo, ía pensando na sua posição caricata, qual ave no choco e deu consigo a conspirar surdamente contra o Sanica por lhe ter alvitrado aquele poleiro de abutre medroso. O sacana do cabo pensaria que ele tinha medo?!...
Mas, intimamente, até se sentia bem posicionado. Do pouco que sabia, os leões não voavam, ali não haveria perigo. Mas não se desvaneceu de todo aquele tremor dos dedos...
A algazarra recomeçara, ao longe. De novo os tambores, as latas, os apitos, os berros musicais do outro grupo, que se ía aproximando.
De repente, bem ao lado, soa um tiro. O Carlos, estendido num ramo, redobra de atenção, com a pistola metralhadora bem aperrada, pronta a disparar...
Tac..., tac..., tac..., o coração batia-lhe como cavalo em solto galope na pradaria. O suor aumentava-lhe no rosto, o ar faltava-lhe nos pulmões, quando, mesmo por baixo, a uns escassos três, quatro metros, na vertical, o nosso leão, com as patas enterradas na areia, olhava pesadamente para um e outro lado da ribeira, desconfiado. Ouvia-se nitidamente a densa respiração da fera, uma bisarma medonha, grande, nutrida...
O Carlos agiu, então, como um autómato; o seu consciente estava às portas do bloqueio, em presença de tão leonina figura. Ensaiou uma duvidosa pontaria na direcção do monstro e disparou uma rajada breve, sem se preocupar com a escolha dos pontos mais vulneráveis; bastou-lhe divisar a massa enorme do bicho na mira e carregar no gatilho.
Era difícil, quase impossível, não acertar, de cima para baixo, àquela distância!
Mas, ao contrário do que pressupunha, aquele não tombou: soltou um urro arrepiante e empreendeu um salto descomunal, embrenhando-se pelo capim alto.
E o nosso jovem manteve-se quieto, mudo e surdo, por uns instantes. Veio-lhe, depois, um pensamento derrotista: falhara..., e saltou da árvore. Na areia seca, nem um pingo de sangue. E ia cogitando: mas era impossível não lhe ter acertado!...
Procurou o Sanica com os olhos, mas o cabo não estava à vista e continuava a remoer no sucedido, quando troaram dois tiros de caçadeira, mais além. Mas manteve-se no local.
- Senhor, já está! O gajo já morreu, tem ali..., o caçador Sacura encontrou caído lá... -, gritava o Sanica, entusiasmado.
- Encontrou caído?! Mas não foi ele que o matou com aqueles dois tiros? – interrogou o Carlos, já bem mais animado.
- Não, não senhor, - voltou o cabo, - o gajo já estava sofrer p’ra morrer, com tiros do senhor adjunto. Sacura deu tiros para segurar ele, que leão ferido fica perigoso mesmo...
Começou a desvanecer-se aquela sensação amarga do fracasso. Afinal, acertara-lhe!
Quando chegou, com o cabo, junto do animal moribundo, o Sacura fez questão de lhe mostrar os três pequenos furos com que o Carlos o havia atingido na espádua. Só que, como aquele continuou a explicar, aquela zona do corpo é dura, não dá para matar logo, com balas de 9 mm. Ele, sim, atirara como um bom caçador: bem na cabeça do gigante..., os zagalotes desfizeram-lhe o focinho...
Mas já um verdadeiro festim começara.
Uns cantavam, outros dançavam, fez-se batuque com o rufar dos tambores; vieram mamanas, vieram catraios, um mar de gente em delírio fez círculo em volta do odioso assassino.
O Carlos sentia-se baboso com tanta e espontânea lisonja, tanto kuerine, tantos beijos de ousada gratidão que as moçoilas lhe iam depositando na face!
Bem real, era para aquela gente o fim de um pesadelo e, também, o vingar dos seus mortos; o castigo do criminoso ditado por um código penal que de pimentel nada tinha...
E a festa continuou ali mesmo, agora com um estranho ritual, nunca visto: toda aquela gente alinhou em fila e, um a um, ao som de afinado cântico, foram espetando uma lança, passada de mão em mão, na cabeça da fera assassina.
Já eram quatro da tarde daquele agitado domingo quando o cadáver, após ter sido arrastado até à aldeia, foi carregado, por uma dezena de braços fortes, na caixa do jipão. Era o regresso. Antes, porém, ainda no povoado, fora o almoço: frango à cafreal com xima e sumo de caju não faltaram, que toda a gente se dispunha a presentear quem, a seus olhos, eram os seus salvadores. Para o Carlos, apesar dos insistentes protestos, ia uma cangarra de galinhas e um cacho de bananas. Eram pessoas generosas na sua pobreza, gratas na sua humildade, os macúas.
- Senhor, eu pode ir? – perguntou o régulo Momola, rodeado pelo seu povo. – Vai dar-me um pouco de xicuembo? Referia-se à gordura que reveste os intestinos do leão.
Entre os macúas e até de parte da colónia de indianos e europeus, era convicção ser aquela gordura um excelente remédio para o reumatismo e até muitas doenças do foro íntimo, como a impotência.
- Mas o leão é vosso! Podem fazer dele o que quiserem!...
- Não, senhor é dono de leão. Quem mata é dono, pode fazer o que quiser dele, - interveio o Sanica, para dar a conhecer mais um dos costumes ancestrais dos nativos.
Já o motor do jeep roncava alegre, de novo na picada. Desta feita, com mais cuidado, não fosse, mais uma vez, a ponte tecê-las...
Chegaram tarde ao largo do posto. Já os miúdos da missão, em visita à sede administrativa, brincavam chilreantes, após o arrear da bandeira.
O administrador, sentado com a mulher e filhos à sobra duma frondosa bugambília, dirigiu-se-lhes apressado e interrogativo.
-Então, Carlos, que tal a caçada? Já estava preocupado com tanta demora! Oh, mas que grande bicho!... – largou, estupefacto, ao debruçar-se no bordo da viatura. - É um grande bicho!
Surgem as explicações de toda a ordem; o onde, quando, como e porquê; dão-se parabéns, vai chegando mais gente, curiosa.
A notícia corre célere e aparecem, também, os europeus da terra: o Fonseca da cantina e a mulher, o Carvalho do algodão e as filhas, e pessoal do aquartelamento militar, que apenas ali se encontrava aquartelado por questões de quadrícula, pois não havia qualquer conflito latente na região.
Todos se encontravam ali mais empenhados em registar na película a sua momentânea comunhão com o senhor da selva.
Os de camuflado não deixariam de enviar uma foto de ocasião às suas madrinhas de guerra, saudosas, em Portugal.
E durou horas aquela peregrinação fotográfica, a quebrar a monotonia sertaneja dos pacatos dias de Balama, enquanto o administrador Barbosa ía passando o tempo a lamentar o exagerado esburacar da pele, que a deixava pouco fiável para a sua desmesurada colecção de curtumes, na salgadeira do armazém.
Quanto ao Carlos, esse tivera direito a algumas duras unhas de leão. Se para mais não servissem, ajudá-lo-iam a esgadanhar nos escolhos que se lhe foram deparando na encruzilhada da vida.
Por longos anos, se foi falando no norte de Moçambique do tristemente célebre “leão dos 16”.
Mas, triste sorte, negro fado o daqueles macúas, pois antes, então e depois, foram sempre vítimas de leões, se calhar mais carniceiros que aqueles, com jubas de todas as matizes... E dessas feras, nem Carlos, nem Sanicas, nem Sacuras os puderam livrar...
Quanto ao autor, tendo passado ao papel este seu conto já lá vai mais de uma dezena de anos, só agora ganhou coragem para o compartilhar, mais por temor àqueles cartazes que se vão vendo em alguns estabelecimentos de venda de armas: “Aqui se juntam caçadores, pescadores, advogados... e outros aldrabões”.
Mas vale a pena correr o risco, suplantado pelo testemunho do maravilhoso fascínio das terras moçambicanas, na sua original e genuína natureza!
- Francisco José Branquinho de Almeida - 1978.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

AS SANÇÕES DA RISOTA

Isto são coisas do Zé Povinho.
Quanto a mim, só direi que há razões para foguetório, de vários quadrantes.
Já imaginaram a falta que iriam fazer os fundos comunitários para as próximas eleições autárquicas,  em que, para além do populismo bacoco e dos afectos serôdios, é preciso que se mostre obra?!?