Em 1977, nas poucas horas livres, procurei saber mais sobre o Passado de algumas terras de Lafões. Socorri-me de obras antigas de autores consagrados, disponíveis na capital, nomeadamente, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Ajuda.
Numa série sob o título "Pequena a terra-Grande o Passado" escrevi e o Notícias de Vouzela publicou as abordagens que fui fazendo. Uma delas, talvez, a que mais me entusiasmou prendeu-se com Figueiredo das Donas e os factos e lendas no âmbito do "Tributo das Donzelas".
Encontrei o manuscrito original e é mesmo esse, datado de 24/10/1977, sem qualquer alteração, que passo a reproduzir:
PEQUENA A TERRA-GRANDE O PASSADO
FIGUEIREDO DAS DONAS
No figueiral figueiredo
a no figueiral entrei,
a no figueiral entrei,
seis ninas encontrey...
Era propriedade dos Melos, em 1873, o Paço acastelado de Figueiredo das Donas.
Da origem remota desta povoação, uma lenda, provida dum dramantismo romântico, prevalesce ao longo dos séculos. Escamoteada ou enriquecida no seu quixotesco enredo, de 783 a esta parte, com versões plausíveis de crédito na sua essência, se atendermos aos costumes desses tempo primitivos, é com essa lenda que a histórica freguesia entra na pia baptismal.
- Em 783, Mauregato, filho de D. Affonso (O Católico) e duma escrava, usurpou o trono a seu sobrinho, recorrendo, para tal, ao auxílio das tropas do Califa de Córdova, Abd-el-Raman, mediante o vergonhoso tributo de cem donzelas lusitanas, que iam enriquecer os haréns mouriscos, tão ao gosto das gentes árabes.
Por amargo destino, chegou o triste dia de Orélia, namorada do nobre cavaleiro lusitano, de sangue gôdo, D. Guesto Ansures, a quem a moça, desesperada, suplicou ajuda. Uma forte escolta a conduzia, e a mais cinco companheiras de infortúnio, rumo a Mérida.
Cavaleiro arrojado, ferido no seu amor, naquilo que teria de mais querido, D. Ansures reuniu, apressadamente, trinta homens da Região de Lafões e com eles, no lugar onde, hoje, é Figueiredo das Donas, num golpe de surpresa, cai sobre os mouros, que abate sem piedade, libertando a donzela sua amada e as que a acompanhavam.
Nessa luta desigual, contra um grupo inimigo bem mais poderoso, em número e armas, o nobre cavaleiro cristão viu partir-se a sua espada no calor da refrega e recorreu a um grosso ramo de figueira, àrvore abundante no lugar, com que continuou a combater os seus inimigos. D. Ansures, após recolher Orélia no seu castelo, com ela viria a casar!
Teria sido o Rei D. Bermudo I quem, em 789, determinou que o local da peleja, carregada, ao tempo, com toda a sua força moral e significado libertador cristão, se passasse a denominar Figueiredo das Donas.
Já, segundo outras versões, aquela povoação deve o seu nome a D. Ramiro I, que lhe deu tal graça, também em memória de D. Ansures, pelo seu feito, em 848.
D. Bermudo I só se terá visto na contongência de pagar o o tributo no primeiro anos do seu reinado, já que atacou em venceu as tropas do Califa Abd-el-Raman, promovendo a efectiva libertação dos cristãos.
D. Ansures teria mandado pintar no seu escudo cinco folhas de figueira e uma no remate do elmo, passando a ser estas as armas da sa Linhagem - os Figueiredos, nome que ele próprio acabou por adoptar!
Se é esta a descrição de muitos os que nos legaram os seus conhecimentos sobre a Lenda das "Donas", outras versões, não só díspares como antagónicas, surgiram, ao longo dos tempos. Razão terá Marck Bloch, ao entender que também a História se presta a vil comércio. Por essa ou outras razões, houve e haverá, que tivesse destruido, pela raíz, todas as mais insistentes concepções que estiveram na génese de Figueiredo das Donas.
Figueiró dos Vinhos teria, segundo alguns, a honra de tal origem, a lenda ou grandeza de tal feito. Miguel Leditão de Andrade, na sua "Micellânea", defende mesmo que os factos relatados, em que D. Ansures se distinguiu, não se terá passado alie que o apelido "Donas" deve provir de algum mosteiro de donas que houvesse, em tempos remotos, naquele lugar. A Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura "Verbo", refere até que "das Donas" foi apenas acrescentado a Figueiredo para que se não confundisse com outras povoações com este último nome.
Outros, como Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, autores da obra "Portugal-Dicionário", datado de 1904, localizam a lenda em Figueiredo das Donas, só que a donzela seria Mécia e não Orélia e seria mesmo filha de D. Ramiro. Aconteceria, segundo estes, por mero acaso D. Ansures (ou Ansares) passar naquele lugar e deparar com Mécia à janela, suplicante, guardada pelos "jagunços" de Então. Depois de libertada, tê-la-ia entregue a D. Ramiro, que, exultando de alegria por a rever sem mácula, consentiu no casamento de ambos, já que outra coisa não desejariam os protagonistas de tão apaixonado drama.
Esta versão é, também, a da Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira.
Célebres, por os considerarem os primeiros, foram os versos com que D. Guesto Ansures, que além de cavaleiro era poeta, celebrou o feito e em que Figueiredo faz rima abundante, passe a dúvida levantada quanto à autenticidade da "Canção de Figueiral".
O povo daquela freguesia foi fazendo a passagem do testemunho de tal feito, prodigamente narrado, mesmo que com variada matizes, ao sabor dos cambiantes filosóficos dos historiadores.
Da origem remota desta povoação, uma lenda, provida dum dramantismo romântico, prevalesce ao longo dos séculos. Escamoteada ou enriquecida no seu quixotesco enredo, de 783 a esta parte, com versões plausíveis de crédito na sua essência, se atendermos aos costumes desses tempo primitivos, é com essa lenda que a histórica freguesia entra na pia baptismal.
- Em 783, Mauregato, filho de D. Affonso (O Católico) e duma escrava, usurpou o trono a seu sobrinho, recorrendo, para tal, ao auxílio das tropas do Califa de Córdova, Abd-el-Raman, mediante o vergonhoso tributo de cem donzelas lusitanas, que iam enriquecer os haréns mouriscos, tão ao gosto das gentes árabes.
Por amargo destino, chegou o triste dia de Orélia, namorada do nobre cavaleiro lusitano, de sangue gôdo, D. Guesto Ansures, a quem a moça, desesperada, suplicou ajuda. Uma forte escolta a conduzia, e a mais cinco companheiras de infortúnio, rumo a Mérida.
Cavaleiro arrojado, ferido no seu amor, naquilo que teria de mais querido, D. Ansures reuniu, apressadamente, trinta homens da Região de Lafões e com eles, no lugar onde, hoje, é Figueiredo das Donas, num golpe de surpresa, cai sobre os mouros, que abate sem piedade, libertando a donzela sua amada e as que a acompanhavam.
Nessa luta desigual, contra um grupo inimigo bem mais poderoso, em número e armas, o nobre cavaleiro cristão viu partir-se a sua espada no calor da refrega e recorreu a um grosso ramo de figueira, àrvore abundante no lugar, com que continuou a combater os seus inimigos. D. Ansures, após recolher Orélia no seu castelo, com ela viria a casar!
Teria sido o Rei D. Bermudo I quem, em 789, determinou que o local da peleja, carregada, ao tempo, com toda a sua força moral e significado libertador cristão, se passasse a denominar Figueiredo das Donas.
Já, segundo outras versões, aquela povoação deve o seu nome a D. Ramiro I, que lhe deu tal graça, também em memória de D. Ansures, pelo seu feito, em 848.
D. Bermudo I só se terá visto na contongência de pagar o o tributo no primeiro anos do seu reinado, já que atacou em venceu as tropas do Califa Abd-el-Raman, promovendo a efectiva libertação dos cristãos.
D. Ansures teria mandado pintar no seu escudo cinco folhas de figueira e uma no remate do elmo, passando a ser estas as armas da sa Linhagem - os Figueiredos, nome que ele próprio acabou por adoptar!
Se é esta a descrição de muitos os que nos legaram os seus conhecimentos sobre a Lenda das "Donas", outras versões, não só díspares como antagónicas, surgiram, ao longo dos tempos. Razão terá Marck Bloch, ao entender que também a História se presta a vil comércio. Por essa ou outras razões, houve e haverá, que tivesse destruido, pela raíz, todas as mais insistentes concepções que estiveram na génese de Figueiredo das Donas.
Figueiró dos Vinhos teria, segundo alguns, a honra de tal origem, a lenda ou grandeza de tal feito. Miguel Leditão de Andrade, na sua "Micellânea", defende mesmo que os factos relatados, em que D. Ansures se distinguiu, não se terá passado alie que o apelido "Donas" deve provir de algum mosteiro de donas que houvesse, em tempos remotos, naquele lugar. A Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura "Verbo", refere até que "das Donas" foi apenas acrescentado a Figueiredo para que se não confundisse com outras povoações com este último nome.
Outros, como Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, autores da obra "Portugal-Dicionário", datado de 1904, localizam a lenda em Figueiredo das Donas, só que a donzela seria Mécia e não Orélia e seria mesmo filha de D. Ramiro. Aconteceria, segundo estes, por mero acaso D. Ansures (ou Ansares) passar naquele lugar e deparar com Mécia à janela, suplicante, guardada pelos "jagunços" de Então. Depois de libertada, tê-la-ia entregue a D. Ramiro, que, exultando de alegria por a rever sem mácula, consentiu no casamento de ambos, já que outra coisa não desejariam os protagonistas de tão apaixonado drama.
Esta versão é, também, a da Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira.
Célebres, por os considerarem os primeiros, foram os versos com que D. Guesto Ansures, que além de cavaleiro era poeta, celebrou o feito e em que Figueiredo faz rima abundante, passe a dúvida levantada quanto à autenticidade da "Canção de Figueiral".
O povo daquela freguesia foi fazendo a passagem do testemunho de tal feito, prodigamente narrado, mesmo que com variada matizes, ao sabor dos cambiantes filosóficos dos historiadores.
A todo este drama, faz Almeida Garrett referência nos "Figueiredos", no 24º livro das suas obras (Escritos diversos), editado em 1877. Também, nele inspirado, José da Silva Mendes Leal criou, em 1856, uma peça dramática intitulada "TRIBUTO DAS CEM DONZELAS", um enorme êxito que se manteve imenso tempo em cena e facturou lucros de repetidas casas cheias!
Como notas de interesse do historial de Figueiredo das Donas, que ora depende administrativamente do Concelho de Vouzela, dependeu do da vizinha S. Pedro do Sul, até 24/10/955. Compreendia, ao tempo, os lugares de Real, Monsanto, Fermil e Quinta do Ervedal.
Como notas de interesse do historial de Figueiredo das Donas, que ora depende administrativamente do Concelho de Vouzela, dependeu do da vizinha S. Pedro do Sul, até 24/10/955. Compreendia, ao tempo, os lugares de Real, Monsanto, Fermil e Quinta do Ervedal.
Em 1907, estas povoações eram já servidas por um serviço postal rural e, por curiosidade, o vigário de S. Pedro do Sul era o seu cura e auferia seis mil reis de congrua e pé de altar.
Quanto a habitações, teria, em 1757, 17 fogos, em 1862, 89 e, em 1873, já seriam 100 os fogos, enquanto a estatística Paroquial de 1875 lhe atribuía, para lá de 440 habitantes, 103n fogos. Já mais recentemente, em 1907, eram-lhe atribuidos 127 fogos e 474 habitantes. Em 1960, seriam já 136 fogos e 551 habitantes.
Povo laborioso e de cunho bairrista, empenhou muitos dos seus filhos, por vezes, famílias completas, desde há longos anos, nos Caminhos de Ferro, onde se distinguiram como bons funcionários, técnicos e operários de via. Não será exagerado dizer que foram e são mesmo os pioneiros ferroviários da região de Lafões.
É justo que se orgulhem deste Passado lendário e a que que o valente cavaleiro D. Guesto de Ansures, um Teseu lusitano, deu origem e nome!
Quanto a habitações, teria, em 1757, 17 fogos, em 1862, 89 e, em 1873, já seriam 100 os fogos, enquanto a estatística Paroquial de 1875 lhe atribuía, para lá de 440 habitantes, 103n fogos. Já mais recentemente, em 1907, eram-lhe atribuidos 127 fogos e 474 habitantes. Em 1960, seriam já 136 fogos e 551 habitantes.
Povo laborioso e de cunho bairrista, empenhou muitos dos seus filhos, por vezes, famílias completas, desde há longos anos, nos Caminhos de Ferro, onde se distinguiram como bons funcionários, técnicos e operários de via. Não será exagerado dizer que foram e são mesmo os pioneiros ferroviários da região de Lafões.
É justo que se orgulhem deste Passado lendário e a que que o valente cavaleiro D. Guesto de Ansures, um Teseu lusitano, deu origem e nome!